Guerreiros solitários

"O guarda-redes é o último bastião. Frio e sereno nos momentos mais quentes, capaz de controlar o stress e o medo nas situações mais extremas. Todos os fins de semana, atletas profissionais como ele dão vida ao sonho de que é possível alcançar qualquer coisa (...)" 

"Uma Vida Curta Demais", para além de um best-seller, revela-se um must-see. A obra lançada em 2011 retrata a vida de Robert Enke, antigo guarda-redes alemão, do Barcelona e do Benfica. Este, suicidara-se dois anos antes, naquele que fora o pináculo de uma vida mergulhada nos nefastos mares da depressão. Uma vida que se confundia com a carreira de futebolista, com o papel de guarda-redes, e sobretudo, com a elevada pressão inerente a esta posição do terreno de jogo. Até que ponto essa pressão deixou marcas na sua doença e posteriormente fê-lo pôr fim à vida é discutível e são legítimas as diferentes perceções que cada leitor possa ter, contudo é indesmentível que a carga emocional que recai sobre os guarda-redes é bem superior àquela com a qual os respetivos colegas de equipa têm que lidar. Ronald Reng, o autor da biografia, é ciente disso e ao longo do livro, tal como exemplifica a passagem supracitada, dá-nos a conhecer esse atribulado planeta emocional dos homens das luvas.

É politicamente correto falar em prol de um coletivo e de onze jogadores com a mesma dose de importância, mas os guarda-redes são frequentemente discriminados. As suas intervenções são por norma menos valorizadas enquanto os seus erros são triplamente enfocados. A diferenciação começa desde pequeno, com a baliza por norma a ser entregue ao míudo menos dotado tecnicamente. Crescemeos e passamos a idolatrar velocistas, maestros, goleadores, raramente defensores ou um qualquer habitante de entre dois postes e abaixo de uma barra. Este é, no entanto, um pensamento que tende a se alterar ultimamente. A presença de um guardião no pódio dos melhores do mundo em 2014, bem como o reconhecimento de que o Mundial do mesmo ano fora o dos guarda-redes induz a essa ideia. Nele, brilharam principalmente o versátil Neuer, o sempre seguro Navas, o elástico Ochoa, o Ministro da Defesa Howard e a genialidade de Van Gaal personificada em Tim Krul. O certame do Brasil, de certa forma, serviu de alavanca para o despontar de vários valores, sendo a Liga Inglesa um dos campeonatos que mais beneficia desta fase positiva no que toca a guarda-redes. Opções de qualidade e diversificadas é o que não falta, desde veteranos - Gomes, Myhil - a novatos - Butland -, passando por supostos suplentes a reclamar titularidade - Elliot, Hennessey, Begović -, por internacionais consagrados - Howard, Čech - e por alguns dos melhores do mundo - Lloris, Courtois, De Gea. É difícil encontrar um clube na liga que não esteja muito bem servido neste capítulo e como no futebol também contam as bolas que deixam de entrar, ou melhor, que foram impedidas de chegar ao fundo das redes, convém realçar o trabalho que vem sendo desempenhado por qualquer um desses nomes. A Premier League 2015/16 rima com surpresas mas também rima com guarda-redes. Eles, autênticos guerreiros, permanecem não poucas vezes sozinhos nesta batalha, mas prometem não desistir e lutarão até ao fim por parar bolas, mesmo que para isso seja necessário voar sem asas. 

E foi precisamente na baliza que se encontravam os dois melhores em campo do jogo-cartaz da última ronda, no nulo entre Stoke e Arsenal. Por falar em não sofrer golos, é meritório destacar Joe Hart e o regressado Fraser Foster, os únicos a manter a baliza inviolável ao longo da transata semana. O Southampton, em particular, destaca-se por ter sido o único dos clubes a ganhar ambas as partidas realizadas. É caso para dizer que a chegada de Charlie Austin já se fez sentir antes mesmo deste pisar o relvado. Em sentido oposto, Palace, Norwich e Watford não somaram qualquer ponto. Anfield, St. James Park e Stamford Bridge foram palco dos maiores espetáculos numa dupla jornada que contou ainda com uma ligeira recuperação dos três históricos em apuros - Newcastle, Sunderland e Aston Villa -, mesmo que qualquer um deles permaneça ainda em zona vermelha. Nota ainda para a quarta vitória consecutiva de Van Gaal ante o Liverpool naquela que é uma das rivalidades mais acesas do futebol mundial, embora esta tenha caído do céu; para as debilidades defensivas do Chelsea que continuam sem ser reparadas, apesar de um ligeiro "despertar" de certos elementos; e para uma liderança novamente partilhada por Arsenal e Leicester, não obstante um certo "apagar" da chama por parte do duo Mahrez-Vardy.

Onze Ideal das Jornadas 21 e 22 da Premier League: Butland (Stoke City); Janmaat (Newcastle); Lescott (Aston Villa); Otamendi (Manchester City); Van Aanholt (Sunderland); Bešić (Everton); Fàbregas (Chelsea); Wijnaldum (Newcastle); Targett (Southampton); Eriksen (Tottenham) e Rooney (Manchester United).
MVP: Wayne Rooney (Manchester United). Seis dias, quatro pontos e dois nomes. Lá atrás, De Gea. Na frente, o maior dos símbolos. Wayne Rooney, que com três golos, parece estar de volta à boa forma. É que apesar deste ano estar a ser menos sacrificado a zonas mais recuadas - com as aquisições de Schneiderlin e Schweinsteiger seria escandaloso -, continua a produzir exibições muito frouxas. Não foi o que aconteceu em Newcastle e Liverpool, em que se notabilizou pela frieza nos momentos de finalização e foi o ganha-pão dos Red Devills.
Jogador a Seguir: Matt Targett (Southampton). De uma das melhores escolas de futebol do país chega mais um promissor jovem inglês. Targett, que até é um lateral-esquerdo, foi adaptado a zonas mais avançadas do terreno na inviabilidade de tirar lugar ao indiscutível Bertrand. Menos indiscutíveis, Tadić e Pellè foram remetidos para o banco numa decisão tão arrojada como bem-sucedida por parte de Koeman. O polivalente de 20 anos entrosou-se bem no ataque e até já leva uma assistência, para além de oferecer um maior equilíbrio à equipa. Poucas receções foram tão confortáveis como as realizadas ao Watford e West Brom.
Treinador da Semana: Ronald Koeman (Southampton)
Melhor Jogo: Liverpool vs Arsenal (3-3)
A Desilusão: Swansea. Nem tanto pelos resultados, pois a permanência de Alan Curtis no cargo de técnico principal causou sensações mistas e o recente triunfo ao Watford compensou em certa medida a escandalosa derrota a meio da semna diante do penúltimo, mas sobretudo pela política que o clube vem levando a cabo. Tudo começou com a contratação de Éder e pelos valores a envolver o negócio, depois, Monk é despedido apesar de tudo o que havia feito pelo clube, neste começo de 2016 é vendido Shelvey, um dos melhores jogadores da equipa, a um oponente direto na agora sua luta pela manutenção, a escolha de Guidolin para manager levanta vários pontos de interrogação, ainda para mais numa altura em que se podia fazer um forcing por alguém como Nigel Pearson, Marcelo Bielsa ou Jorge Sampaoli e como se não bastasse, a equipa é obrigada a jogar sem ponta-de-lança devido ao sub-rendimento daqueles que tem à disposição e soluções tardam em chegar. Pelos lados do País de Gales, o futuro já foi mais risonho.
Menção Honrosa: Flash interview após o Stoke vs Arsenal. Ver Čech e Butland juntos na entrevista logo a seguir à partida que terminou empatada, muito devido à prestação que protagonizaram, foi simplesmente delicioso. Entre uma análise honesta daquilo que se passou em campo e uma tímida troca de elogios, não houve espaço para mais casos senão os estritamente relacionados com o futebol jogado, tendo imperado o fair-play. Se o checo provou o porquê de ser considerado um verdadeiro gentleman, o inglês transpareceu uma invulgar maturidade para a sua idade. Dividiram os pontos, tendo somado os três a Premier League que volta a evidenciar-se por uma iniciativa prestigiante fora das quatro linhas.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Marco Rodrigues

Etiquetas: