É cada vez mais fácil fazer a cama

O HMS Bounty ficou famoso, não pelas batalhas ou campanhas em que participou, mas pelo motim que permitiu à tripulação tomar conta do navio, posteriormente largando o seu comandante à deriva no mar. Insatisfeitos com a dura disciplina imposta, cederam aos apelos da vida na Polinésia, escrevendo assim um episódio da História que inspirou livros e filmes. Isto a propósito de...

Rafa Benítez acabou de ser despedido do Real Madrid. Os maus resultados e más exibições costumam ter como consequência a saída do treinador, e o Real Madrid não é mais nem menos que os outros. Até aqui, nada de novo. Mas se este era um desfecho previsível por aqueles que duvidavam das capacidades do treinador, ainda este nem se havia comprometido oficialmente com os merengues, a verdade é que existia um punhado de homens capazes que podiam provar o quão os detractores estavam errados. Mas desde o dia da apresentação, ficou claro que estes pareceram mais interessados em acelerar o processo do que propriamente em revertê-lo.

É fácil dizer que Benitez foi um erro de casting, que é incompetente e não tem pulso para uma equipa como o Real. Mas a verdade é que ele foi apenas mais uma vítima de uma epidemia que também ataca técnicos competentes, conceituados e de punho forte, todos eles acabando na rua. Facto comum? Os jogadores não estavam com eles. José Mourinho, conhecido pela estreita relação que mantém com os seus jogadores, perdeu o balneário. De Nuno Espírito Santo os jogadores do Valência não gostavam. Em ambos os casos, as capacidades profissionais dos elementos despedidos não foram colocadas em causa, mas simplesmente, estes não tinham os jogadores do seu lado. E quando assim acontece...

Actualmente está na moda elogiar a excelência dos grandes gestores, a visão dos líderes, a audácia dos empresários. Mas se estes não tiverem atrás de si uma equipa dedicada e competente, estão condenados ao fracasso. O mesmo se passa com os treinadores. Podem apresentar filosofias de jogo inovadoras, implementar metodologias de treino perfeitas, colocar em campo modelos de jogo, planos A, B e C, terem ideias e montarem um plantel com o qual o mais fervoroso adepto do FM jamais sonhou, mas se os jogadores não quiserem... não têm a menor hipótese de sucesso.

No futebol actual os jogadores são tratados como estrelas, como autênticos princípes. Têm mordomias profissionais e pessoais com as quais o comum dos mortais nem sonha. Ou melhor, sonha, pois vê-as desfiladas à sua frente. Aliás, tomara muitos atletas profissionais de diversas modalidade terem o tratamento de excelência dado aos futebolistas de elite que, como se diz na gíria, são tratados nas palminhas. No entanto...

Não é incomum os jogadores mostrarem publicamente a sua insatisfação. Seja pela pouca utilização que têm, ou com o modo como são colocados em campo. Seja pelos resultados, dos quais são participantes mas nunca responsáveis, seja por não sentirem carinho e afecto. Ou por receberem pouco, relativamente ao muito que fazem. Os jogadores, verbalmente ou através das redes sociais, demonstram uma panóplia de sentimentos negativos, que vão da angústia à infelicidade, com tal ênfase e frequência que parece inacreditável como a profissão de futebolista não é referida naquelas listas que descrevem os piores empregos do mundo. Tivesse feito Paulo Futre doutrina, assistiríamos a um desfile de rescisões por falta de condições psicológicas, tanto o sofrimento infligido.

Os balneários actuais são minados por todo um leque de quezílias, como diferenças salariais, quem está ou não próximo dos centros de decisão, sejam eles Direcção ou equipa técnica, quem é mais querido pelos adeptos, quem é criticado pela imprensa, quem é o responsável pelas vitórias e o culpado pelas derrotas. As disputas hierárquicas e o confronto de egos sempre foram e serão parte integrante de qualquer organização colectiva, mas existem situações que começam a extravasar aquilo que é concebível num ambiente profissional, até porque se torna visível até ao olho destreinado que demasiadas vezes os actores colocam os seus interesses pessoais à frente dos interesses do grupo. Situação esta facilitada porque, embora o futebol continue a ser um desporto colectivo e a palavra "grupo" seja a mais utilizada, nunca o individualismo falou tão alto. Ou não fossem também os prémios individuais valorizados como nunca. Ou não houvesse hoje em dia tantos adeptos de jogadores quanto há adeptos de clubes. Ou talvez mais. Na verdade, o futebol profissional ao mais alto nível está sob elevada pressão mediática, pelo que em dia uma equipa profissional é acompanhada por um exército de técnicos especializados e psicólogos. Mas alguns comportamentos levam a pensar que o que ainda faz falta ao staff é uma educadora de infância, pois a dinâmica em muito se assemelha à encontrada na pré-primária. 

Chegados a este ponto, perguntamo-nos o porquê da corda partir sempre do lado do treinador. Os dirigentes devem ter a consciência de que os jogadores estão de má-fé, numa atitude ainda por cima recorrente. Os adeptos conseguem enxergar que um jogador não se aplica no relvado. Os jornalistas vêem que os atletas boicotam o treinador. Então porque não correr com todas as divas e crianças mimadas?

A resposta mais simples é de que é mais simples, rápido e barato despedir um do que despedir onze. O treinador foi, é e será o elo mais fraco, pois é francamente mais complicado construir um plantel do que uma equipa técnica. Existe o argumento de que um clube não pode ficar refém do trabalho e das manias de um treinador, mas o facto é que acaba por ficar refém sim, de um grupo de jogadores que acaba por pôr e dispôr à sua vontade. Outro ponto é o do relacionamento com os adeptos, e na realidade estes têm muita culpa no cartório, pois além de raramente tomarem partido do treinador, acabam por eles próprios potenciar os comportamentos negativos, com a sua devoção. Afinal, deslocamo-nos ao estádio para ver vinte e dois artistas atrás de uma bola, e não vinte e dois a correrem, mais dois a mirarem do banco suplentes. O que não deixa de ser curioso é que a um Messi que se sente "pressionado" porque está num lucrativo processo de renovação, ou a um Ronaldo que marca o dobro dos golos do Benzema mas não recebe o dobro dos prémios e o triplo dos mimos, tudo se perdoa, enquanto que a um desgraçado que queira rescindir por vencimentos em atraso se exija "brio profissional". Ou de que a um atleta semi-amador tudo se exija, sem a menor contemplação, enquanto que para um futebolista pago principescamente haja sempre uma boa desculpa ou justificação.

Mas mesmo que uma Direcção tente varrer o chão, hoje é tremendamente complicado um clube livrar-se de um jogador. Os investimentos são infinitamente superiores, pelo que o retorno deve ser minimamente proporcional, os salários elevados (dos quais os atletas não abdicam) reduzem a oferta disponível, e ao contrário do que acontecia no passado, colocar um jogador na prateleira apenas serve para manter uma despesa até que o contrato que o une ao clube expire. E por exemplos recentes, até há jogadores que nem se incomodam em ficar um ou dois anos sem jogar, desde que recebam o deles no fim do mês.

Por tudo isto, a melhor solução continua a ser a mais óbvia. Por melhores intenções que tenha o comandante do navio, se cada um remar para o seu lado, a embarcação não chegará a bom porto, mesmo que aquele seja um perito a ler mapas e interpretar ventos. E assim sendo, perante uma revolta generalizada, o comandante é largado à deriva, enquanto os amotinados seguem a sua vida, como se nada se tivesse passado.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

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