Liga a preço de Saldo

Muito se tem falado e comentado sobre os monstruosos negócios conseguidos por Benfica, Porto e Sporting. Especulações sobre as valências e os prejuízos de cada um deles, mas sobretudo a comparação entre eles, numa obsessão patética para ver qual é o melhor negócio, e a partir daí proferir a sentença de qual o maior clube em Portugal.

Vamos a números. 400 milhões para o Benfica, 457,5 para o Porto e 446 (ou 515, fazendo a vontade a BdC) para o Sporting. A diferença está na empresa compradora (Nos no caso de Benfica e Sporting, Meo/Altice no caso do Porto), no número de épocas (3 com possibilidade de renegociação para 10 no Benfica, e 10 no Sporting e Porto) e nos direitos concessionados (para os três, direitos televisivos e transmissão e distribuição dos canais dos clubes; no Sporting e no Porto, acresce o patrocínio das camisolas e a publicidade estática).

O propósito deste texto não é decidir qual o negócio mais lucrativo. Nem tão pouco o de analisar, ponto a ponto, cada um dos negócios, que deixam muito por explicar, propiciando as especulações pouco objetivas, muitas vezes ficciosas, que por aí se fazem ouvir. O propósito deste texto é outro: o de analisar a questão que, na minha opinião, é aqui o foco basilar de todos os problemas. Os contratos foram festejados efusivamente por todos os adeptos dos três grandes clubes - e não é difícil, dado o volume de milhões de euros em cima da mesa, perceber porquê. Mas resta saber: que efeitos, positivos ou negativos, é que este acontecimento tem para o desporto-rei? 1304 milhões não são pouca coisa; tanto dinheiro em jogo dava para criar milhares e milhares de empregos; percebe-se, enfim, a dimensão e a amplitude de consequências que esse valor pode ter. Primeira ideia a reter: a monstruosidade do valor dos negócios.

Diga-se de passagem que a Nos celebrou, pouco depois, contratos com a Académica, o Belenenses, o Nacional, o Marítimo, o Arouca, o Braga e o Setúbal. Os valores não foram revelados; mas basta ver o treinador do Nacional a lamentar a situação e a criticar os negócios realizados para se perceber que a diferença real entre estes contratos tardios e aqueles que os antecederam é, provavelmente, astronómica. Portanto, segunda ideia a reter: a desigualdade entre os três grandes e os restantes clubes (ou a sobrevivência dos grandes à custa do enfraquecimento dos restantes).

Há que perceber a dimensão do nosso país para a discussão que se segue. Comparando com o que vai lá fora, na Inglaterra ficaram conhecidos os negócios celebrados no início de 2015, cujo total ascendeu a 7000 milhões de euros (por três temporadas); na Alemanha, por quatro anos, os contratos valiam 2500 milhões de euros (o dobro do valor recebido pelos três grandes portugueses); em Espanha, Real Madrid e Barcelona recebem 140 milhões por época; e em Itália, o valor médio dos grandes clubes anda à volta dos 80 milhões anuais. De todos, o modelo inglês foi o mais elogiado - não pelos valores em si, que levantaram uma onda de críticas e queixas à UEFA (por irem contra o fair-play financeiro), mas pela igualdade de princípio subjacente aos acordos. Em 2014, o Liverpool recebeu 130 milhões, o Cardiff, despromovido, recebeu 80 milhões (apenas 1,6 vezes menos do que os reds). Equilíbrio. Terceira ideia a reter: os modelos mais funcionais são os que não esmagam os pequenos para enaltecimento dos grandes, coisa própria de um ultraliberalismo sem visão nenhuma.

Num país com 10 milhões de habitantes e 14 milhões de benfiquistas (pequena provocação), os valores conseguidos pelos três grandes são, há que admitir, muito benéficos. Mas a situação em que ficam os clubes pequenos é miserável. A imagem que isso dá do nosso campeonato é péssima: os pequenos são os "pobrezinhos", e estes negócios são a consagração da impossibilidade prática de haver um campeão que não seja Porto, Benfica ou Sporting. É a redução do futebol nacional a três cores. Tudo se resume a ver qual dos três vai conseguir o primeiro lugar em cada ano. Os outros, bem podem lutar por um lugar na Europa, agarrando-se às migalhas que a Liga não lhes fornece, mas no fundo, no fundo, são estrangeiros num campeonato que não é para eles, mas para os grandes. Quarta ideia a reter: a miséria dos pequenos.

O modelo que era seguido, antes de 2015, pela nossa Liga era o da centralização dos direitos de TV. A Liga de Clubes, agora dirigida por Pedro Proença, assumir-se-ia como 'pivot' na gestão destes negócios. Os grandes precipitaram o falhanço do plano de Proença, e puseram em destaque a inoperância da Liga, reduzida a um mero papel de espectador nas jogadas que se adivinhavam. Questionado sobre o assunto, Bruno de Carvalho disse que o Presidente da Liga "errou e muito", e acrescentou: "O Sporting era a favor da centralização, ponto. Mas a partir do momento em que um dos clubes [Benfica], que faz parte da presidência da Liga e que assina um 'business plan' em que estava escrita a centralização, depois avança para o outro lado e fura o acordo... o Sporting tinha de ir para o mercado". Luís Filipe Vieira, por seu lado, disse que Proença devia era demitir-se. Neste jogo de culpas e contraculpas, de puxar o tapete a um e elogiar o outro, percebeu-se que havia tudo menos uma visão estratégica e um sentido de negócio na Liga e na relação entre os nossos clubes. Proença errou, ponto final. Mas os clubes também não ajudaram. Quinta ideia: a incompetência de Proença, a nulidade que é a Liga e o egoísmo comprometedor das entidades desportivas nacionais.

O ponto essencial é este: escondida por detrás dos números redondos e do proveito lucrativo a curto prazo para os três maiores clubes em Portugal, está a triste realidade que é a pobreza do nosso futebol, o caos que é a nossa Liga e a evidente desigualdade que impera neste momento no nosso país.

Que fazer, então? Ao abrigo da autonomia privada e do respeito pela liberdade de cada um, nenhuma entidade, seja o Governo, seja a Liga, sejam os tribunais, pode agora desfazer o mal já feito. Estes negócios são formalmente válidos e vinculam, quer as partes que contrataram, quer os terceiros que têm simplesmente de respeitar os acordos. Agora também não há volta a dar no plano de centralização, porque só sete clubes, creio, é que ainda não celebraram nenhum negócio. Portanto, para ser simples, as coisas estão complicadas.

O que deve ser feito, no espaço reduzido de atuação, passa por uma reforma aprofundada do modo de funcionamento da Liga de Clubes. Em primeiro lugar, o Presidente não pode continuar a ser eleito pelos clubes, modelo que, ficou provado, não funciona - a eleição de Proença, por exemplo, resultou no aparecimento de dois blocos de sinal contrário, um com FC Porto e Sporting, o outro com o Benfica, o que dificulta desde logo a tomada de decisões. Como organização com interesse público que é, o Presidente deveria ser escolhido por uma comissão independente - um conselho de administração, com algumas personalidades escolhidas pelos clubes e outras cooptadas pelos seus pares, é uma boa ideia. Em segundo lugar, a Liga deve, de uma vez por todas, autonomizar-se, reforçar-se, para deixar de ser um simples lacaio dos clubes - nomeadamente dos três grandes. Os direitos televisivos são apenas uma das áreas de intervenção onde o papel da Liga é hoje quase nulo, quando teoricamente seria essa a organização reguladora, assegurando a transparência financeira e o equilíbrio fundamental entre os grandes e os pequenos. Em terceiro lugar, parece-me cada vez mais óbvia a necessidade de regulação mais apertada dos grandes clubes, hoje em dia completamente intocáveis pelo Estado. Regulação que não se limite a exigir declarações à CMVM, mas que promova a igualdade e não a disparidade, o espetáculo e não o negócio, o conjunto e não as partes separadas, a instituição Liga e não os blocos de compadrios, enfim, o futebol como desporto e não como fonte de rendimento. Numa palavra, equilíbrio. À inglesa.

Os três negócios marcam uma importante mudança no futebol nacional, quase à altura do surgimento das sociedades anónimas desportivas, no final dos anos 90. Mas, ao contrário daquela, cujos efeitos positivos e negativos se anulam, esta nova mudança só irá trazer efeitos nefastos. É tempo de equilibrar o futebol. Não se podem ceder todos os valores basilares em prol da busca incessante do lucro. Uma tão grande desigualdade, além de eticamente reprovável, é também negativa, a longo prazo, para o espetáculo, emocionante e imprevisível, que é, ou que devia ser, o futebol.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Araújo

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