A História, os Adeptos e o Declínio

Não é segredo para ninguém que dita as regras no futebol contemporâneo quem tiver mais dinheiro para gastar. Ao velho continente chegam investidores de todos os cantos do planeta, prometendo mundos e fundos, e se é verdade que Anzhi e Málaga exemplificam na perfeição a falibilidade de projetos do género, casos como o do PSG, do City e do Chelsea retratam bem o impacto dos milhões da Rússia ou Médio Oriente no desporto-rei. Contudo, e porque a voz do povo ainda é a voz de Deus,"o dinheiro não compra tudo". Embora vitórias encurtem distâncias para os troféus e atraiam mais pessoas, um passado glorioso e uma massa associativa fiel orientada por uma paixão genuína pelo clube não estão ao alcance de notas e cheques. Casos desses suscitam uma afeição por parte de qualquer seguidor da bola pelo romantismo que simbolizam, e é por isso que o gosto por emblemas como o Athletic ou o Dortmund é algo comum a muitos de nós. Assim como o é por conjuntos como o Manchester United ou Liverpool em Inglaterra. Mas os casos multiplicam-se pela ilha. Triste, é perceber que nem todos foram capazes de manter o nível demonstrado noutros tempos, e ao passo que uns já experienciam divisões inferiores, outros para lá caminham a velocidade de cruzeiro. São os chamados gigantes adormecidos. Em coma, talvez o termo mais apropriado para apelidar a situação do Aston Villa.

Em Birmingham mora um campeão europeu, um heptacampeão inglês e também por sete vezes vencedor da tão ambicionada FA Cup. Mais precisamente no Villa Park, regista-se uma das dez melhores médias de assistência dos campeonatos ingleses. O Villa ocupa ainda a sétima posição numa All Time Premier League Table, sendo um dos poucos totalistas da competição. Mas até quando? Nos derradeiros suspiros da última temporada, Tim Sherwood foi o salvador da pátria, carimbou ainda o regresso à final de Wembley, mas o estado de graça rapidamente se esfumou. O pragmatismo ilustrado na exibição da primeira ronda em Bournemouth foi rapidamente substituído por uma descomunal falta de ideias de jogo. Nem a vitória para a Taça da Liga no sempre escaldante Second City Derby apagou esta fase horrível. De Paul Lambert, o antecessor, que até somara 10 pontos nas quatro jornadas iniciais de 2014-15, ninguém quer ouvir falar. Rémi Garde, o estranho sucessor - é curta a história de sucesso de treinadores não-britânicos em Inglaterra e o francês apenas havia treinado uma equipa antes de ingressar no Villa -, ainda não conseguiu sequer um triunfo. As "finais" perdidas aos pés de Sunderland e Norwich na última semana tornam ainda mais negro o cenário. Os mais otimistas dirão que há que dar tempo ao novo técnico, mas isso é exatamente o que escasseia. Impera-se a tomada de medidas drásticas. Das mesmas que não foram levadas a cabo no último verão quando, por exemplo, se deixou saír os dois melhores jogadores da equipa - o caso Delph, também denota a passividade da direção, em contraste com o caso Berahino no West Brom - sem se dar uma resposta à altura. Os reforços na sua maioria não têm correspondido, Ilori até já foi devolvido, Jordan Ayew é uma das exceções e dos poucos a remar contra a maré. Grealish, apontado como a futura grande estrela, é capa dos jornais mas pelos piores motivos. A salvação está a já 11 pontos de distância, algo que até é positivo para uma equipa que em 20 jogos ganhou apenas 1. No entanto, a tendência é que o fosso aumente cada vez mais. Para invertê-la, Nigel Pearson e Charlie Austin - duas figuras incontornáveis à edição passada da Premier League e atualmente "perdidos" - perfilam-se como dois nomes a levar em linha de conta. A ver vamos por onde passará a aposta, se é que ela ocorrerá.

Em posição oposta à dos Lions está o Arsenal, que assumiu a liderança isolada. Mesmo que a acusar demasiado cansaço e naquela que talvez tenha sido a melhor exibição para a liga do Newcastle, os três pontos foram alcançados, graças ao golo do super Koscielny - é provavelmente o melhor defesa central da temporada até ao momento na Europa, a par de Boateng. E ao falhanço de Mahrez. Na receção ao Bournemouth notou-se menor fulgor por parte do Leicester e o argelino ainda foi a tempo de falhar uma grande penalidade. Vardy vai parar umas semanas e é expectável uma ligeira queda na tabela. Mas atenção! Não excluam os Foxes de quaisqueres conjeturas pois já mostraram bem aquilo de que são capazes. Em Watford, semana inglória para a equipa da casa. Boas exibições diante de legítimos candidatos ao Top 4 mas duas derrotas seladas nos últimos minutos. Esta última diante do City. A anterior aos pés dos Spurs, que deram espetáculo nos primeiros 45 minutos em Goodison Park, mas os 90 ditaram um empate. Antes disso, um murro na mesa do Chelsea no derby diante do Palace. Ainda em Londres, o West Ham pôs um travão ao Liverpool e prolongou a brillhante série de partidas diante dos cinco tubarões - 5 vitórias e 1 empate. Brilhantes, também foram os últimos resultados de Norwich e West Brom que agora respiram cada vez melhor. O mesmo dizer do United e de Van Gaal que após oito jogos sem vencer, ganhou na receção ao Swansea.

Onze Ideal da Jornada 20 da Premier League: Čech (Arsenal); Martin (Norwich); Evans (West Brom); Koscielny (Arsenal); Van Aanholt (Sunderland); Noble (West Ham); Willian (Chelsea); Alli (Tottenham); Sessegnon (West Brom); Martial (Manchester United) e Defoe (Sunderland).
MVP: Defoe (Sunderland). É uma afirmação já cá antes proferida e que vale a pena reiterar - Defoe, juntamente com Petr Čech, é o veterano mais útil desta edição da Premier League. Levando em conta jogadores com mais de 30 anos, é justo destacar Terry pela prestação na temporada transata. Este ano, todavia, este título assenta melhor a outro internacional inglês. O ex-Tottenham, nada inibido com o milionário regresso de Borini, desempenha um papel primordial na manobra ofensiva dos Black Cats, sobretudo pela liberdade que tem para ocupar vários espaços do ataque. Em termos de finalização, os dotes têm sido igualmente evidenciados e até já faturou mais vezes do que todas aquelas feitas no último campeonato. Isto na sequência de uma passagem igualmente produtiva pela MLS. Alcançar um lugar de novo na seleção é que parece mais difícil, atendendo à concorrência - Kane e Vardy são alguns dos nomes mais fortes para a posição.
Jogador a Seguir: Martial (Manchester United). Não se perca. Este United joga pouco ou nada, por vezes chega a meter dó, mas ainda há quem faça pela vida em Old Trafford. De Gea, apesar de ainda preterido por nomes como Neuer e Buffon, é hoje muito provavelmente o melhor guarda-redes do mundo. Smalling está a realizar a melhor época desde que chegou ao clube. Mata, apesar de andar algo despercebido ultimamente, não raras vezes dá provas de toda a sua magia. E o avançado francês, por sua vez, está longe de ser um flop - algo que se pode apontar a Depay. Diante do Swansea foi mesmo decisivo e com um golo e uma assistência continua a fazer de tudo para fazer jus ao rótulo de Sr. 50 Milhões.
Treinador da Jornada: Slaven Bilić (West Ham)
Melhor Jogo: Everton vs Tottenham (1-1)
A Desilusão: Crystal Palace. Que falta faz Cabaye a esta equipa. É o elemento-chave dos Eagles. O mobilizador do ataque, o equilibrador no momento defensivo. Sem ele, ante um Chelsea ainda à procura da melhor forma, não houve capacidade de resposta nem Planos B. Jedinak, outrora o dono daquele meio-campo, não assume mais a mesma preponderância e isso ficou patente no Domingo, enquanto a defesa, numa tarde muito infeliz, mostrou-se frágil e incapaz de contrariar a criatividade dos atacantes do Chelsea. A equipa falhou assim o seu primeiro League Double de sempre perante os Blues, o que não altera o facto de estar a fazer um excelente campeonato.
Menção Honrosa: Poucos mas bons. Se há golos que são autênticas obras de arte, esta ronda da Premier League bem pode ser considerada uma Galeria. Voltou a registar-se um número relativamente pequeno de tentos marcados, mas alguns deles foram verdadeiras relíquias. O calcanhar do Rooney, a colocação de Carles Gil mesmo que em desequilíbrio ou os tiros de primeira de Yaya e Willian representam o expoente máximo de tudo aquilo que é a beleza do futebol. Que mais desses se sucedam.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Marco Rodrigues

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