Querer é Poder

Desengane-se quem pense que a Premier League é sinónimo de perfeição. Aliás, esta última não passa de uma utopia. Portanto, o exercício de encontrar falhas neste campeonato não é complicado. Assim como não o é o de encontrá-las em qualquer outro. Ainda no passado fim-de-semana, os dois jogos de maior cartaz desiludiram e de que maneira. Tanto no Leicester vs United como no Tottenham vs Chelsea, as primeiras partes ainda foram marcadas por alguma emoção, mas a vontade de não sair derrotado sobrepôs-se à de vencer nos respetivos tempos complementares, resultando isso em fracos espetáculos de futebol. Porém, há muito mais por onde se pegar e no que toca a entrega e dedicação não será inusitado considerar esta como uma Liga exemplar. A ronda 14 da Premiership traz a personificação disso nos casos de Vardy e do Bournemouth. O primeiro trata-se de um avançado que até há bem pouco tempo não passava de um ilustre desconhecido para grande parte dos adeptos da bola. Hoje, falamos da ilustre figura que detém o incrível recorde de 11 jogos a marcar consecutivamente no principal escalão britânico. O passado, já bastante esmiuçado por toda a comunicação social, nem sempre foi fácil, embora a crença nas suas qualidades tenha falado sempre mais alto e a descomunal dedicação tenha-se revelado produtiva. Foi o grande e talvez único destaque do embate entre, imagine-se, os dois primeiros classificados da altura. Já o Bournemouth, é o estranho caso de uma equipa em zona de descida, que apresenta uma das propostas de futebol mais apreciáveis e recusa-se a perder a identidade. No último sábado, juntou a isso um enorme espírito de equipa, e a forma hérculea como por duas vezes recupera da desvantagem na receção ao Everton (3-3) é de se tirar o chapéu.

Querer também foi poder para o Sunderland. Podiamos começar pelo topo, mas nada é mais justo do que destacar esta subida de rendimento dos Black Cats desde a chegada de Sam Allerdyce. Perdão, Big Sam. 9 pontos nos últimos 15 possíveis é qualquer coisa de extraordinária depois de um começo de ano caótico. É verdade que estamos a falar de uma equipa de retranca e que aposta muito do seu jogo no contra-ataque, mas quando se consegue tantos pontos nesta situação é ridículo colocar o foco no modelo de jogo. Depois de Pellegrini, Ranieri e Quique Flores, estaremos na presença de mais um falso réu? Regressando ao cimo da tabela ao passo do regresso do City ao 1.º lugar, vitória perante os Saints (3-1), enquanto o Arsenal decidiu prolongar a sua série sem ganhar, não indo além de um empate em Norwich (1-1). Em sentido inverso, o Liverpool continua a aproximar-se da zona alta, mesmo que em tons menos deslumbrantes que os denotados em Manchester. Seguem-se os londrinos Palace e West Ham. Os primeiros, protagonizaram uma das goleadas menos surpreendentes dos últimos tempos e a razão disso é mais do que conhecida, ou não tivessem defrontado o Newcastle (5-1), enquanto os Hammers começam a sentir saudades de Payet. Saudades essas que, todavia, não serão maiores do que as dos adeptos dos Villa, relativamente aos áureos tempos do clube. Um autêntico gigante adormecido, ou em coma, que não encontra forma de sair do buraco em que está metido. Agradece o Watford que, contra todas as previsões, está muito tranquilo nesta altura, sendo menos os pontos que os aproximam do Top 4 do que aqueles que os distanciam da linha de água.

Onze Ideal da Jornada 14 da Premier League: Pantilimon (Sunderland); Coleman (Everton); Olsson (West Brom); Bennett (Norwich); Monreal (Arsenal); Can (Liverpool), MC Arthur (Palace); Delph (Manchester City); Stanislas (Bournemouth); Bolasie (Palace) e Ighalo (Watford).
MVP: Bolasie. Uma autêntica locomotiva no atropelo dos Eagles aos Magpies. On fire desde o primeiro momento, aproveitou da melhor maneira as mil e uma debilidades da defesa contrária e ainda foi a tempo de acumular um bis.
Jogador a Seguir: Jordon Ibe (Liverpool). Todos os anos aparece em Inglaterra um jogador do perfil de Lennon ou Shaun Wright-Phillips, ou seja, um extremo velocista com boa técnica e que desequilibra com facilidade. Ibe, não sendo um novato (já tinha somado minutos em outras épocas), apesar de só ter 19 anos, é mais um elemento nesta linha. A dúvida é se, ao contrário do que aconteceu com outros alas (Sterling parece ser a única excepção), se vai afirmar em pleno, ou com o passar dos anos desaparece da ribalta. Para já os indicadores são positivas. O inglês tem sido muito utilizado por Klopp e justificado essa aposta com boas exibições.
Treinador da Jornada: Alan Pardew
Melhor Jogo: Bournemouth vs Everton (3-3)
A Desilusão: Arsenal e a lengalenga do costume. Pelo menos uma vez por ano, todos os anos, o Arsenal parece dar mostras de ser um forte candidato ao título, mas rapidamente dissipa todas essas expetativas. Assumo que também já fui contagiado por esse vírus esta temporada, mas, para não variar, foi mesmo sol de pouca dura. No dia 8 de novembro os Gunners estavam a um triunfo da liderança isolada. Não apenas perderam essa oportunidade como só somaram 2 pontos desde então. A onda de lesões, que consegue ganhar proporções maiores do que qualquer uma da praia da Nazaré, também não ajuda, mas até que ponto não estarão os métodos de Wenger ligados a estas contusões que de resto têm sido recorrentes nos últimos anos? A competitividade da Premier League não permite cavar distâncias muito acentuadas por enquanto e qualquer adepto ainda acreditará no título, mas os mais céticos seguidores certamente pretendem-se afastar da criação de novas falsas esperanças.
Menção Honrosa: Premier League de volta à Sport TV. Ganham sobretudo os adeptos portugueses deste campeonato. Não que a BTV não tenha melhorado a olhos vistos com o adquirir dos campeonatos internacionais, mas numa Liga em que cada partida é praticamente uma final a oferta de directos deixava muito a desejar. Sábado às três volta a ser assim o horário do mais louco zapping desportivo.

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