Os heróis também rasgam a capa

‘Futebol é momento’.
Há jogadores simbólicos. Há episódios inolvidáveis. Há carreiras que davam um filme.
Miguel Garcia: A peculiaridade do altruísmo.

A história de Miguel Garcia não saiu de um conto de fadas, é uma das que ‘contada ninguém acredita’. Não é uma questão de dicionário: Garcia sempre percebeu que ‘trabalho’ antecede ‘sucesso’. Nunca quis ser mais do que podia e nunca colocou a fasquia em altura impossível de saltar. Talvez nunca tenha querido ser herói, mas o heroísmo veio ter com ele. Talvez nunca tenha querido ser ‘o homem dos momentos decisivos’, mas estes tenderam a funcionar como íman. Ninguém traça o destino.

Fronteiriço de gema, sempre foi um filantropo, um ‘low profile’, porém nem sempre são os magos a disparar o feitiço e, ainda que por tempo compendiado, o defesa direito – que em tempos foi médio ou até central – largou a indumentária de operário e revestiu-se de cabedal para assumir o papel principal - a escrita em prosa deu lugar à lírica – logrando o título de herói improvável.

Mas antes do ato paladino, e após um dos clássicos mais brilhantes de que há memória (3-3, após prolongamento), foi vilão. Incapaz de converter a grande penalidade que lhe foi ‘destinada’, acabou por permitir ao Benfica avançar para os quartos-de-final da Taça. O jogador mediano, ‘que cumpria’, acabara de receber o epíteto que ninguém quer. Até que…

‘O herói de Alkmaar’ deu ‘a alegria a milhões de portugueses’. O 3-2 que garantiu a final de Lisboa não foi apenas um golo. Foi ‘o golo’ que proporcionou a Jorge Perestrelo o último grito de emoção, a última euforia, o gáudio que os Coldplay viriam a trasladar, anos mais tarde, através de “Paradise”.

De contrastes se faz o futebol: a bênção que Miguel recebeu relevou-se maldição para o Sporting – que perderia a final da competição no seu estádio – e para o próprio – que, por terras italianas se viu confrontado com uma lesão impeditiva de fazer o que mais gostava. Desafortunado, acabou no desemprego. O Olhanense deu-lhe uma nova vida. As coisas correram de feição e os ares algarvios foram sol de pouca dura. Ingressou no Braga. As duas épocas nos Gverreiros voltaram a revelar os dotes agoirados do internacional esperança. Voltou a atingir o pódio – o quinto - mas o ouro nada quis com ele. Mais uma oportunidade de ser feliz na segunda competição mais importante da UEFA e, quando o ‘trauma’ do Benfica parecia ultrapassado, eis que surge o Porto como barreira impeditiva do êxito.

Seguiu-se a Turquia, onde permaneceu duas temporadas no Orduspor. Findas, o assombro voltou a pairar, com nova ida para o desemprego. Maiorca foi palco do sexto casamento, mas os imbróglios voltaram a fazer das suas. Divórcio consumado e novo enlace: desta vez no NorthEast United, da Índia (!). Apesar de uma aventura no Sporting Goa, ainda é com a turma do United que mantém ligação.

O sub-32 acabou – dificilmente voltará aos grandes palcos - por se deparar com uma carreira à base do quase, ficando a sensação que seria sempre um candidato a vencer a tômbola final, mas a quem faltaria o dado mágico ‘all the times’.

Miguel Garcia é um exemplo para todos os jovens que ambicionam a profissionalização.

A capa dos heróis pode rasgar-se e precisar de ser remendada.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Renato Santarém

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