O estranho caso de uma invencibilidade caseira

Na Turquia, nenhuma equipa da primeira liga atrai menos pessoas ao estádio: em média, apenas 1303 espectadores por jogo. Em Portugal, por exemplo, só o Estoril Praia apresenta uma média de assistências inferior. A percentagem de ocupação do Estádio 19 de Maio, emManisa, nem sequer ultrapassa os 8% e é a mais baixa de todo o campeonato. No entanto, com dezasseis jornadas já disputadas, o Akhisar Belediyespor é a única equipa, a par do Fenerbahçe de Vítor Pereira que ainda mantém um registo caseiro invicto. 

Fundado em 1970, por Yilmaz Atabarut, o Akhisarspor resultou da fusão de três antigos clubes: o Güneşspor, o Gençlikspor e o Doğanspor, dos quais herdou, respectivamente, as três cores que surgem no seu emblema: o preto, o verde e o amarelo. Antes de atingir a elite, o clube repartiu grande parte da sua história entre os escalões amadores e a quarta divisão, e só em 2008, conseguiu pela primeira vez a promoção ao terceiro escalão. No entanto, não iria tardar para que o clube subisse mais um degrau na pirâmide do futebol turco. Em 2010, o “Akigo”, como é carinhosamente tratado pelos seus adeptos, sagrou-se campeão da terceira divisão.

Na temporada seguinte, e com o orçamento mais baixo de toda a segunda liga, o Akhisarspor viveu momentos muito delicados, que acabariam por conduzir ao despedimento do seu treinador Atilla Özcan – à frente da equipa desde 2007 – após uma goleada imposta pelo Orduspor, que atirou a equipa para a zona de despromoção. Dois dias depois, a direcção apresentou Hamza Hamzaoğlu, que só por um triz conseguiu salvar a equipa da descida. 

Em 2011/12, o antigo médio do Galatasaray, conseguiu o impensável. Depois de ocupar as posições cimeiras durante toda a temporada, o Akhisarspor bateu o terceiro classificado Çaykur Rizespor na última jornada do campeonato, e beneficiou do deslize do Elazığspor, que liderou o campeonato ininterruptamente nas 19 jornadas anteriores, para se sagrar campeão da segunda divisão, garantindo pela primeira vez na sua história o acesso à primeira liga.

Confrontado com uma realidade completamente diferente, os primeiros meses não foram fáceis para os comandados de Hamzaoğlu. Após a quadra natalícia, o Akhisarspor estava afundado na última posição do campeonato e este cenário obrigou a uma séria investida no mercado de inverno. E eis que o Pai Natal não poderia ter sido mais generoso. Assim, a 24 de Janeiro de 2013, o clube anunciava a contratação do internacional grego Theofanis Gekas, então com 32 anos.

Depois de uma aventura falhada em Espanha, ao serviço do Levante, o melhor marcador da Bundesliga em 2006/07 e da zona de qualificação europeia para o Mundial da África do Sul, regressava ao futebol turco, seis meses após uma curta mas muito profícua experiência com a camisola do Samsunspor, e o seu impacto não se fez esperar, com 6 golos nas primeiras 8 presenças junto dos seus novos companheiros.

No início de Abril, e com apenas sete jornadas por cumprir, o Akhisarspor ainda se encontrava abaixo da linha de água, e o calendário nas rondas seguintes não permitia olhar para o futuro com muito optimismo. No entanto, contra todas as expectativas, a equipa levou de vencidos consecutivamente o Trabzonspor, o Kasımpaşa e o Beşiktaş, e ainda logrou um empate no terreno do Bursaspor, quatro equipas com orçamentos muitíssimo superiores ao seu. A derrota que se seguiu, com o Antalyaspor, ainda atirou o Akhisarspor de novo para a zona aflita da tabela, mas a equipa acabaria por garantir a manutenção com dois triunfos nas duas últimas jornadas sobre o Mersin İdmanyurdu e o Orduspor, que eram, respectivamente, o último e o penúltimo classificado do campeonato.

Com 12 golos e uma assistência, “Fanis” Gekas esteve directamente envolvido em 54% dos golos do Akhisarspor durante a segunda volta. Sem eles, o clube teria terminado na penúltima posição do campeonato, com menos 16 pontos, subtraídos aos 42 que a equipa acabou por amealhar no seu ano de estreia na primeira divisão e que lhe valeram o 14º lugar.

Na temporada seguinte, Gekas trocou o Akhisarspor pelo Konyaspor, mas o clube não se ressentiu na sua ausência. Ao lado do brasileiro Bruno Mezenga, num tradicional 4-4-2, o senegalês Baye Oumar Niasse foi o escolhido para liderar a frente de ataque e rapidamente fez esquecer o seu antecessor com 5 golos nas primeiras 7 jornadas do campeonato. Esta dupla foi responsável por 23 dos 44 golos apontados pelo Akhisarspor, que garantiu, sem qualquer tipo de sobressaltos, a manutenção pela segunda temporada consecutiva. Numa campanha tranquila que culminou com o 10º lugar, destaque para os 13 pontos conquistados na recepção ao Fenerbahçe, Galatasaray, Beşiktaş, Trabzonspor e Sivasspor, os cinco primeiros classificados do campeonato, e para o hat-trick apontado por Gekas contra a sua antiga equipa. 

No final da temporada, o assédio a Niasse foi tal, que o Lokomotiv de Moscovo pagou mais de 5 milhões de euros pela sua contratação. O mesmo jogador que no passado mês de Setembro fez a cabeça em água à defesa do Sporting no triunfo dos russos por 3-1, em pleno Estádio de Alvalade. Também o comando técnico sofreria alterações: Hamzaoğlu abandonou o clube onde conquistou grande parte da notoriedade que usufrui hoje em dia para abraçar a tempo inteiro o cargo de treinador adjunto na selecção nacional, que o mesmo tinha assumido ainda em Agosto de 2013. Porém, em Novembro, Hamzaoğlu seria nomeado o novo treinador do Galatasaray, após a demissão do italiano Cesare Prandelli, em virtude dos maus resultados. Em menos de um ano, o técnico de 44 anos conquistou a dobradinha e já na presente temporada a Supertaça, antes de ser despedido, após uma pobre participação na Liga dos Campeões e um terceiro lugar no campeonato, com que se despediu em Novembro último.

A escolha do seu sucessor recaiu Mustafa Reşit Akçay, um homem com um percurso muito semelhante ao seu. Em 2011, o técnico de 55 anos colocou o Tavşanlı Linyitspor na segunda liga, depois de duas promoções consecutivas, e em 2013, esteve à beira de colocar o 1461 Trabzon na primeira liga, depois de também ele trazer o clube do terceiro para o segundo escalão na temporada anterior. 

Com Gekas de regresso ao Akhisarspor e com Zokora entre a lista de reforços, o início de temporada foi auspicioso com 4 triunfos e um empate nas primeiras 7 jornadas, que catapultaram a equipa para a 3ª posição. No entanto, a queda foi abrupta, e o Akhisarspor entrou numa espiral de resultados negativos que se prolongou por mais de três meses. Ao todo, foram 13 jornadas consecutivas sem saborear uma vitória, que obrigaram ao despedimento de Reşit Akçay no final de Dezembro.

Também despedido alguns dias antes pelo Sivasspor, que recorde-se tinha sido a grande sensação do campeonato no ano anterior, Roberto Carlos, antiga glória do Real Madrid e da selecção brasileira, assumiu o comando da equipa até ao final da temporada. O começo não foi fácil, as vitórias contam-se pelos dedos de uma mão, mas o Akhisarspor acabou por alcançar a manutenção pela terceira temporada consecutiva. No entanto, a página de ouro na história deste clube estaria reservada para a presente temporada.

A uma jornada do final da primeira volta, o Akhisarspor ocupa o 6º lugar do campeonato com 28 pontos, a apenas um do terceiro lugar, partilhado por outras três equipas, e que de resto era seu à entrada para a última jornada, na qual a equipa acabou derrotada por 3-2 no terreno do Galatasaray. Num desafio pautado pelo equilíbrio, tanto em termos de posse de bola (50-50) como de oportunidades criadas (12 contra 11), os erros individuais deitaram tudo a perder, com responsabilidades para o guarda-redes Lukac em 2 dos 3 golos.

O Akhisarspor é hoje orientado por Cihat Arslan, de 45 anos, um antigo defesa central com uma longa carreira na primeira e segunda divisão, e que enquanto treinador, já soma no currículo um título da segunda divisão, conquistado em 2013/14 com İstanbul Başakşehir, uma das principais forças emergentes do futebol turco a par do Kasımpaşa, ambas de Istambul, mas que pelos seus investimentos e passado recente, já não constituem propriamente uma surpresa pelo quarto e quinto lugar que ocupam, respectivamente. Todas elas com mais um ponto que o Akhisarspor, que encerra 2015 este domingo com a recepção ao Osmanlıspor, de Artur Moraes e Tiago Pinto, e que é orientado pelo seu antigo treinador Reşit Akçay.

Já sem os dois jogadores mais influentes dos últimos anos, Theofanis Gekas, que foi inesperadamente afastado da equipa por Roberto Carlos na temporada transacta, e o capitão Bilal Kisa, que rumou ao Galatasaray no verão, a equipa dispõe-se habitualmente num 4-3-3, com destaque para a presença de três homens de características essencialmente defensivas a meio-campo. Os ex-Braga Douglão, Custódio e Sami, todos eles habituais titulares, são as caras mais conhecidas para os portugueses.

A tradição no que diz respeito ao avançado estrangeiro com especial faro pelo golo também se mantém. Proveniente do Fulham do Championship, o colombiano Hugo Rodallega trocou o futebol inglês pelos solos férteis do Egeu. Com 11 golos até ao momento, “Hugol” ocupa a terceira posição na lista de artilheiros do campeonato, onde só é superado pelos mais consagrados Mario Gómez e Samuel Eto’o, com 12 e 13 golos, respectivamente. No clube desde 2012, Güray Vural é o elemento mais valioso da equipa e o mais irreverente do ataque. Tem sido constantemente associado a emblemas de maior nomeada. Contudo, mais importante que destacar o jogador X ou Y, é realçar uma vez mais a força que a equipa tem exibido quando joga em casa.

Em 7 jogos, o Akhisarspor somou 6 triunfos e apenas um empate no Estádio 19 de Maio, casa emprestada pelo Manisaspor. Sim, porque só desta forma se poderiam explicar os fracos registos de assistência que o clube tem somado, apesar dos brilharetes que os seus jogadores têm protagonizado dentro das quatro linhas. Tudo isto porque o seu antigo estádio não reúne condições para receber jogos da primeira liga. É assim desde 2012, e pelo menos assim será até que as obras no novo Estádio de Akhisar, com capacidade para mais de 11 mil espectadores, não estejam concluídas.

Até lá, os adeptos mais fiéis continuarão a ter de percorrer, semana sim, semana não, os mais de 50 quilómetros que separam as cidades de Manisa e Akhisar, ambas na região do Egeu, na zona oeste do país, para acompanharem ao vivo a grande revelação da temporada no futebol turco, tão fértil em paixões e rivalidades escaldantes.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Lains

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