Das capas e muitos milhões até ao fundo do banco e de preferência longe do 11

Se há jogador que desperta uma unanimidade de opiniões negativas, é Anderson Talisca. O brasileiro que nenhum benfiquista quer ver no 11 titular, nem sequer a entrar durante o jogo, é contudo quase um caso de estudo.

Quando chegou no defeso de 2014/2015 por 4 milhões de euros vindo do Bahia, envolto quase em anonimato, ninguém podia prever que ano e meio depois o jovem baiano viria a causar um impacto tão profundo como causou. Hoje, a pergunta que se faz quando se fala de Talisca, é o que fazer com ele, já que os dias do longilíneo canhoto parecem estar contados junto da comunidade encarnada.

Mas voltando ao início da época passada o cenário era bem diferente. Talisca estreou-se no jogo da Taça de Honra, frente ao Estoril onde foi considerado o MVP da partida e onde marcou o golo decisivo. Nesse jogo, ainda sem aquele carácter decisivo dos jogos oficiais, Talisca acabaria por mostrar a sua identidade futebolística a quem não o conhecia. Na altura, a mesma comunidade que agora o despreza, salivava por aquele jogador que se movimentava anarquicamente pelo campo, mas que tinha um pé esquerdo capaz de fazer estragos, quer pela potência e colocação do seu remate, quer pela forma quase ingénua como transpunha para os relvados europeus, aquelas arrancadas com bola controlada muito características dos “meias” brasileiros. E conhecendo a predileção do antigo timoneiro benfiquista pelos jogadores altos (Talisca acabaria por marcar de cabeça esse golo frente ao Estoril), o futuro parecia risonho.

Numa época em que o FC Porto apostava fortíssimo com Lopetegui no comando técnico, e com uma assertividade sem paralelo no mercado de transferências, o que levou a opinião pública de uma forma generalizada a considerar os dragões o principal candidato ao título, o Benfica de Jesus parecia condenado a garantir o segundo lugar, já que as faixas estavam entregues e a liga ainda nem sequer tinha começado.

Esse baixar de expectativas acabou por funcionar a favor do Benfica e nesse período inicial de quase descrença que gradualmente se vai transformando em esperança, uma figura emergiu como decisiva, e essa figura era…Talisca.

O jovem brasileiro entrou na equipa de forma sorrateira e foi provavelmente o jogador mais importante na conquista do título nacional. Jonas e Lima marcaram um saco de golos, Gaitan e Salvio eram decisivos pelas alas, Luisão, Jardel e Júlio César formavam uma defesa que parecia inultrapassável, mas foi Talisca que com 7 golos na 7 primeiras jornadas que não só lançou o Benfica para o título no período mais difícil, como devolveu aos benfiquistas aquilo que parecia perdido face ao poderio da armada ibérica do FC Porto.

E após esses 7 jogos, Talisca virou uma autêntica rock star. Chamado à Selecção Brasileira, entrevistado pelas maiores redes de informação do Brasil, capa de jornais desportivos porque era cobiçado por meia europa, e apelidado de D’ Artagnan pelo seu treinador numa acesa troca de palavras entre Jesus e Mourinho sobre quem descobrira o ouro na Bahia primeiro. O seu valor de mercado tinha disparado em 7 jogos dos 4 milhões dados pelo Benfica meses antes para oito vezes mais! Nascia uma estrela…ou pelo menos achava-se que sim.

Mas isto é futebol, e o futebol é fértil nestas histórias e rapidamente a euforia passou a depressão. O menino brasileiro acabou engolido pelos considerandos tácticos do jogo e a ingenuidade e pureza do seu futebol deixaram de fazer sentido, numa estrutura maquinal que queria pontos e vitórias.

A afirmação de Jonas como máximo goleador da equipa e parceiro preferencial do abre-latas Lima, a saída de Enzo Perez para o futebol espanhol e o 4-4-2 rígido de Jesus, um espartilho táctico que já havia amarrado e desintegrado o talento puro de jogadores como Bernardo Silva, retiraram espaço e influência ao baiano que durante a restante época havia de percorrer todo o tipo de territórios.

Jogou a 8, jogou a 6, jogou sobre as duas alas, mas em todas essas posições revelava pouco à vontade. E de verdadeiro achado pescado no Brasil, passou a ser uma sardinha do rio.

Aquele futebol ingénuo e malandro desaparecia dentro das necessidades estruturais da equipa, e à semelhança do que já havia acontecido com outros executantes (recuando um pouco no tempo a mesma pergunta fez-se sobre um dos ídolos passados do Benfica, João Vieira Pinto, que nunca ninguém soube muito bem se era um 10, um 9, um 8 ou um 9,5).

Talisca pode oferecer meia distância que nenhum outro jogador do plantel tem, velocidade de circulação de bola quer lateralizado quer em profundidade (apenas Pizzi o consegue fazer), condução através do espaço central utilizando mudanças de velocidade (só com a inclusão de Renato Sanches no 11 se voltou a ver), a equipa ganha mais um executante com qualidade de bolas paradas (onde o plantel actual não possui nenhum especialista) e golo.

Em paralelo, o brasileiro revela uma ineptidão brutal para fazer compensações defensivas, incapacidade para perceber os vários momentos do jogo e o que a equipa pede em cada um deles, é um jogador que se perde em transição defensiva e que por esse motivo recorre em demasia à falta. No esquema utilizado no Benfica de Jesus e que foi recuperado por Rui Vitória, essas fragilidades ficam expostas quando o brasileiro é utilizado pelo miolo quer como 6 ou como 8. Sobre uma das alas, o jogo de Talisca desgasta e deixa exposto o lateral, e a tendência para ocupar os espaços centrais faz com que a equipa perca verticalidade.

Todas essas lacunas foram evidentes com Jesus e continuam a sê-lo com Rui Vitória, ficando no ar a pergunta, deve-se pedir a um jogador para fazer aquilo que não pode ou que não sabe?
E dentro do futebol moderno, altamente mecanizado e estruturado, deve-se expor a equipa a um menor rendimento retirando um jogador que encaixe no sistema e colocando outro que o desvirtua mas que pode oferecer valências que o complementem?

A discussão actual já não é se Talisca deve ou não jogar, ou onde o deve fazer, mas sim se Rui Vitória deve sacrificar Jonas, o máximo goleador da equipa, mas que só rende em 4-4-2, para adoptar um 4-2-3-1 que aparentemente serve melhor o interesse da equipa, abrindo espaço por exemplo para um jogador cuja massa adepta do Benfica actualmente saliva, o sérvio Djuricic, que curiosamente tal como Talisca é uma vítima desse espartilho táctico, uma vez que também só rende como terceiro médio colocado nas costas do ponta de lança.

Táctica e necessidades colectivas vs qualidade individual e rendimento. No resolver desta aparente complicada equação sobressaem as grandes equipas e os grandes treinadores.

E agora Talisca? Dá a resposta Rui Vitória e o Benfica.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Flávio Trindade

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