Aos vencedores, os despojos

Fonte: Público
Terminada a primeira fase da guerra dos negócios dos direitos televisivos, é altura de fazer um balanço. A competição pelo mercado de conteúdos, com a chegada da Altice, indicava que os valores relacionados com o futebol pudessem ser inflaccionados tendo em conta o passado recente. É preciso não esquecer que, para lá do seu valor sentimental, ou não fosse este um país totalmente virado para o desporto-rei, o futebol (e o desporto em geral) é um dos poucos conteúdos televisivos que obrigatoriamente tem de ser seguido em directo, o que aumenta a sua procura. O negócio do Benfica abriu as hostilidades, mas embora os valores divulgados impressionassem (ainda estão longe daqueles com que somos bombardeados diariamente nas ligações a bancos que a malta tem de resgatar), era claro que os dois outros grandes iriam fechar parcerias por valores semelhantes. Só mesmo o adepto mais ferrenho pensaria que o Porto se ficaria pelos célebres 80%, ou que a soma dos valores dos rivais da Luz não chegariam àquele que foi pago ao Benfica. Só mesmo o adepto mais ferrenho pensaria que os 400 milhões eram inalcançáveis. Com ou sem recurso à locomotiva, pois cada um escolhe o meio de transporte que preferir, cada um seguiu o seu caminho, e mais tostão, menos tostão, o destino foi o mesmo. Contratos de longa duração, fechados com os dois "players" em campo. No fim, todos ficaram felizes. Os operadores ficam com a bola, os clubes com o dinheiro, e o espectador.. bem, logo se verá.

Sem entrar em detalhes sobre cada um dos negócios (até porque muitos, como o faseamento do pagamento, são desconhecidos), estes são parecidos em defeitos e virtudes. A duração de uma década tem a vantagem de garantir rendimento, mas prende os clubes a um contrato que lhes pode ser prejudicial, caso o mercado se altere, curiosamente o cenário com aqueles se deparam hoje. É impossível saber o que será o Futebol em 2025, qual o papel da televisão, que plataformas media existirão, qual a força de cada emblema, ou sequer qual a força de cada empresa. Há uma década atrás muitos se ririam perante a ideia de ver conteúdos televisivos via internet, mas hoje é uma realidade. Por isso, o que é ouro hoje, bem pode ser prata, ou mesmo pechisbeque, amanhã.

Como se pensava, a centralização dos direitos é um mito. Ouro dos tolos. É indiferente descortinar se Proença enganou os clubes com vãs promessas, ou se os clubes se deixaram enganar, a verdade é que este cenário é impraticável, a não ser, claro, que exista uma intervenção governamental, como no país vizinho. Numa mentalidade bem lusitana, foi cada um à sua vidinha, tratar do seu quintal, e quem quiser que se mexa. Nada de novo, por duas razões: primeiro, ninguém tem qualquer tipo de visão estratégica para o futebol nacional. Por mais que se apregoem regenerações ou "projectos", vive-se de esquemas, de trocas de favores, de colocação de amigalhaços em postos de decisão. Justiça lhe seja feita, Carlos Queiroz foi o único a tentar pensar o futebol português como um todo, pesem todos os seus defeitos enquanto treinador, e algo mais. Segundo, seria inaceitável os grandes abdicarem da grande porção do bolo, em detrimento de uma divisão mais equitativa. Um critério de divisão baseado em méritos desportivos e de share televisivo nem sequer é equacionado, em detrimento daquele argumento subjectivo da "grandeza" de cada um. Ou seja, um modelo imobilista, em que o clube X recebe o dobro de Y, porque foi, é, e sempre será duas vezes maior. Isto como se o número de sócios, de adeptos, de seguidores não fosse variável, ou de como se a militância não dependesse da classificação, da empatia com um treinador, ou de resultados obtidos.

Satisfeitos os três do costume, cabe aos Outros fazerem pela vida. Possivelmente, e porque de facto possuem um produto atractivo (não esquecer que "apenas" os jogos caseiros dos 3 grandes é curto enquanto conteúdo televisivo de ordem semanal), é natural que passem a receber espargos ao invés de lentilhas. Mas em qualquer caso ficarão com um sabor amargo na boca. De qualquer modo, o contrato do Tondela não fará parangonas, pelo que realmente é irrelevante o que acontece.

Resta o campeonato do melhor negócio do século, que terá vencedor consoante a cor. Entram em campo os economistas, os estatísticos, cada um a defender o seu ponto de vista. Os quinhentos em doze anos não batem os quatrocentos em dez, mas a proporção dos quatrocentos e cinquenta em onze anos é melhor que quatrocentos em oito. Como sabemos, o português não é barra a matemática, mas adora números.

Mas antes de terminar, convém não esquecer que... o tolo e seu dinheiro cedo se separam. Pelo que convém saber onde gastar todos estes milhões.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

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