Ainda muito por responder...

O negócio do Benfica com a NOS é o assunto quente, e até dia 10 promete dar que falar. Anunciado com devida pompa, a falta de confirmação oficial dos detalhes deixa um espaço superior a uma semana, de modo a que o país do futebol possa especular à vontade. O papel reservado à Sport Tv, o futuro da BTV, a exclusividade ou partilha de conteúdos, tudo isto são questões às quais não existe resposta formal. Ainda assim, existem alguns contornos deste negócio que merecem análise.

O primeiro é de que, por mais "ses" ou "mas" que os adeptos adversários ou detractores de Vieira coloquem nas suas frases, este é um negócio histórico para o clube da Luz. Os valores apresentados, ainda que adocicados à medida de cada boca (quem ouvisse alguns peritos pensaria que o Benfica iria receber o dinheiro à cabeça, de uma só assentada), são completamente absurdos naquilo que tem sido até agora a realidade dos direitos televisivos. O segundo, é que por mais impressionantes que sejam estes números, nem vale a pena tentar comparar este mega-negócio com o que se passa nas ligas mais importantes. São realidades diferentes, mercados diferentes, nem sequer Portugal tem instituições financeiras capazes de alavancar negócios ao nível do que se faz por Inglaterra, por isso as comparações não fazem sentido.

Outra questão interessante é a do papel da BTV nos últimos anos. Embora possa ter sido financeiramente rentável, era mais que visto que as receitas do canal nunca iriam superar a de uma venda directa dos direitos do jogos caseiros, por mais propaganda que se fizesse. Porém, a "cedência" dos jogos à televisão do clube retirou força ao único "player" do mercado, e quebrou efectivamente com um sistema monopolista. Ou seja, mesmo que não tenha sido financeiramente uma boa jogada (efectivamente o Benfica, perdeu, ou melhor, deixou de ganhar dinheiro), acabou por ser uma manobra altamente eficiente do ponto de vista político.

Quanto à centralização dos direitos, bandeira do defunto Mário Figueiredo, e também agitada por Pedro Proença, bem lhe podem passar a extrema-unção. Não aconteceu, nem irá acontecer. Porém, isto não invalida o facto da Liga de Clubes se ter mantido misteriosamente silenciosa durante todo este processo. Ou se calhar, Proença segue a norma de que não havendo algo de inteligente a dizer, mais vale ficar calado. Mas ficou mais uma vez provado que, no futebol português, os interesses individuais estão sempre acima dos colectivos, pois é ponto assente que os três grandes preferem negociar individualmente do que fazer parte de uma posição integrada. A centralização até deveria permitir valores globais maiores, até porque neste caso o monopólio estaria do lado de quem fornece um produto com saída, e não de quem o procura, mas uma negociação a dezoito teria certamente como consequência a uma divisão mais igualitária (à imagem do que acontece noutros países, em que o desnível de receita televisiva entre gigantes e anões é curto), o que forçosamente obrigaria os maiores emblemas a abdicarem da parte de leão (sem segundo sentido) do bolo.

Por último, um ponto que tem passado um pouco ao lado da discussão. Os valores astronómicos são associados à grandeza do Benfica, da força da marca, e das sequelas da BTV nos resultados da Sport TV. Mas poucos referem que a entrada em cena de uma empresa francesa com algum poder económico pode, provavelmente, ter influenciado esta inflação nos valores. Ao fim de décadas de monopólio, finalmente os direitos televisivos são confrontados com algo parecido com um mercado aberto, e aumentando o número de concorrentes em busca do produto futebol, naturalmente quem vende esse produto ganha margem negocial (e já nem precisam de recorrer aos x% do valor do vizinho). Já correm notícias de que a Altice não quer ficar de mãos a abanar, e de que mesmo a Vodafone pode entrar nesta corrida. Tendo a NOS já um grande encargo nas mãos, pode não conseguir acompanhar os outros competidores, caso estes apostem forte. E é preciso lembrar que o Benfica vende 17 jogos do SLB ao mercado televisivo, mas ainda há outros 15, na posse dos ditos pequenos, à mão de semear... sendo que estes ainda trazem de bónus de 15 jogos do Sporting e 15 do Porto.

Finalmente, Sporting e Porto. Esquecendo a questão da fidelização até 2018 (sendo que os contratos podem ser rescindidos, desde que alguém cubra a rescisão), dificilmente a NOS oferecerá os mesmos valores, ou sequer aproximados, a um, ou ambos os emblemas. A não ser que consiga vender aos concorrentes os conteúdos, não haverá capacidade para sustentar os três grandes com valores desta grandeza. Mas, é aí que entra o tal mercado, pois agora parece haver alternativa. E o caminho mais certo é do dois rivais se virarem... para os rivais da operadora, sendo que a Altice/PT até parece motivada a criar um canal próprio de desporto, e que melhor maneira de o lançar do que obtendo direitos de transmissão de 17 (por enquanto) clubes?

Como referido, ainda há muito a definir e esclarecer, mas um ponto parece assente: finalmente os clubes, ou parte, vão passar a receber em conformidade com o negócio que efectivamente sustentam. O futebol gera muito dinheiro, e é apenas justo que a sua base receba a devida recompensa. Mas ainda assim fica um pouco a ideia de que esta nova realidade é mais fruto da intensa competição no mercado das plataformas tv e internet, do que propriamente resultado da valorização das competições enquanto produto.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

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