A Hora da Verdade

Aperte bem os cintos! É Natal, aproxima-se o Reveillon, mas sem Premier League esta fase do ano certamente não seria tão especial. Não há blockbuster, bestseller, não há concerto ou festival que se equipare a isto. Raça, dedicação e devoção. Lágrimas, sorrisos e suor. O futebol no seu estado mais puro. Um turbilhão de sensações nos nossos corações. Com a certeza de que o campeonato inglês nunca mais será o mesmo. Parafraseando Luís Freitas Lobo, "acima disto não existe mais nada". A partir do próximo dia 26, com o célebre Boxing Day, e ao longo de 30 jogos repartidos por minúsculos 9 dias, nada importa. Apenas o agora. Os loucos 270 minutos de futebol que cada equipa terá que enfrentar prometem deixar milhões e milhões colados ao ecrã. 

Leicester, és capaz de sair vivo? Mahrez, Vardy e companhia, ainda há pilhas? Ranieri, tens a certeza que para além de Wenger, mais ninguém está na posse do antídoto para parar a tua equipa? Perguntas que se repetem, e sempre respondidas de forma categórica semanalmente. Nesta última em particular, os Foxes não apenas venceram o campeão como tombaram o Everton na cidade dos Beatles. Mas não haja dúvidas que ir a Anfield e defrontar o vice-campeão apenas três dias depois é o verdadeiro e derradeiro teste às capacidades deste clube que ofereceu à sua cidade a Consoada mais feliz de sempre - é líder, é o emblema que menos derrotas sofreu (apenas uma) e simultaneamente o melhor ataque, e um dos dois únicos conjuntos a depender apenas de si para se sagrar campeão. Vale o que vale. O outro, é precisamente o Arsenal. Vitória imponente diante do City, num encontro que fez lembrar a conquista da Community Shield perante o Chelsea, com fases alternadas de domínio e de pragmatismo. Inteligência, acima de tudo. Mas se em Wembley foi Coquelin a encher o campo, a noite no Emirates foi de Özil. E pela enésima vez coloca-se a questão: temos candidato? Certo é que os Gunners gozam do calendário teoricamente mais acessível nesta que se antevê ser uma fase louca. 

Por falar nisso, estaremos a presenciar a mais insana Premier League de sempre? É que as "beautiful stories" deste campeonato vão muito para além do Leicester. É merecedor destacar o Palace, que tmbém viveu um início de temporada conturbado no último ano, assim como qualquer um dos três clubes que na última época batalhavam no inferno do Championship. Os quatro ganharam e vivem um período bastante positivo, acompanhando excelentes exibições de resultados sobejamente satisfatórios. O mesmo já não se pode dizer de outros. Manchester United, em casa, e Liverpool, fora, prolongaram uma altura que parece ser de dissipação de expetativas. Os triunfos no Etihad e em Stamford Bridge começam a ficar curtos para Klopp, que por enquanto beneficia de alguma tolerância dos adeptos, enquanto que Van Gaal, com margem de erro quase nula, já vive com a sombra de Mourinho atrás de si. Contudo, foi com uma vitória que o Chelsea se estreou a jogar sem o técnico português. Mas este Sunderland é dos ossos menos duros de roer e já vê a salvação a uma distância de 5 pontos. Pior só mesmo o Villa, apesar de ter conseguido ir roubar pontos a St. James Park. O Southampton, que perdeu em casa de forma clara diante dos Spurs, conta com 1 ponto somado nos últimos 15 possíveis, menos 1 do que os do Swansea nesse período - empate caseiro, mas enganador, diante do West Ham-, tratando-se de duas equipas que surpreendentemente se veem metidas na luta pela manutenção.

Onze da Jornada 17 da Premier League: Hennessey (Palace); Ivanović (Chelsea); Koscielny (Arsenal); Alderweireld (Tottenham); Daniels (Bournemouth); Alli (Tottenham); Capoue (Watford); Özil (Arsenal); Mahrez (Leicester); Jerome (Norwich) e Igahlo (Wataford).
MVP: Özil (Arsenal). É certo que voltou a não marcar, mas o trabalho, por vezes quase invisível, que o alemão desempenha no momento de construção é qualquer coisa de extraordinário. "Ele vê as coisas que mais ninguém vê, antes mesmo de elas acontecerem", dizem os colegas de equipa. E qualquer um é obrigado a concordar com tais declarações. Na receção ao City, mais duas assistências para a conta, levando já 15 no total. Deulofeu e Mahrez, os perseguidores mais diretos, acumulam "apenas" 7.
Jogador a Seguir: Deulofeu (Everton). Quem também está-se a tornar um mestre da construção é o sub-21 espanhol. Após uma época dececionante em Sevilla, regressou a um lugar onde já foi feliz e onde, ao que parece, continua a sê-lo. A par de Barkley - outro dos jogadores a seguir atentamente na turma de Martinez - é o dono do meio-campo dos Toffees e nesta ronda voltou a servir para golo, embora a sua equipa tenha acabado por perder a partida.
Treinador da Jornada: Quique Flores (Watford)
Melhor Jogo: Everton vs Leicester (2-3)
A Desilusão: Manchester United e o pós-Ferguson. Porque falar do presente é relembrar amargamente o passado, torna-se incontornável ligar este mau período dos Red Devils à saída do escocês que criou um legado no Teatro de Todos os Sonhos. Atualmente, de todos os pesadelos. O último foi vivenciado no transato fim-de-semana com o United a perder em casa diante do Norwich. Numa toada que não fugiu àquilo que tem sido comum - muita posse de bola, contudo inconsequente na esmagadora maioria das vezes. Isto no seguimento da traumatizante eliminação da Liga dos Campeões estando inseridos num  grupo completamente ao alcance. Milhões e milhões depois, o timoneiro holandês, nem de perto nem de longe, faz esquecer Sir Alex. Dá a sensação que o seu trabalho - atendendo ao facto de estar a usufruir de mais e melhores condições - está a ser pior do que aquele desempenhado por Moyes, houve quem já tivesse pedido a transição de Giggs para técnico principal, Pardew foi outra das soluções mencionadas, mas a presença de Mourinho no mercado pode perfeitamente acelerar as férias de Van Gaal no Algarve.
Menção Honrosa: A humildade de Alan Pardew. Assobiadelas, lenços brancos e enorme contestação. Era sob este ambiente que vivia aquele que é provavelmente o melhor treinador inglês, por estas alturas de 2014 em Newcastle. Do outro lado do país, mais precisamente no sul de Londres, um clube que o venerava suplicava pelo seu regresso, agora enquanto treinador. A troca Newcastle-Palace parecia pouco provável, não apenas porque a temporada encontrava-se a decorrer como porque apesar de tudo, parecia significar o descer de um (ou mais) degrau(s) na carreira de Pardew. Pois bem, o técnico não pensou duas vezes e fez questão de regressar às origens, a um sítio onde sempre foi idolatrado. Os resultados, esses, estão à vista: no Palace... e em Newcastle. Apesar de se tratarem de casos distintos, é possível fazer algum paralelismo entre esta mudança e a efetuada por Paulo Fonseca após ter sido afastado do cargo técnico do Porto. Humildade, o denominador comum.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Marco Rodrigues

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