Uma posição para qualquer um?

Quando perguntamos a um miúdo com o sonho de se tornar futebolista profissional qual a posição em que gostaria de jogar é frequente as respostas serem coincidentes. Os ídolos moram no meio-campo, nas alas, no ataque, sendo que, se em alguns casos poderá existir alguém que, até pelo seu porte físico, ambicione ser um grande defesa central, raramente a opção passará por se tornar um lateral de grande nível mundial. Na verdade, a posição outrora notabilizada por figuras como Facchetti, Maldini, Roberto Carlos, Cafú ou mais recentemente Evra, Ashley Cole ou Maicon parece estar a cair em desuso e tem-se assistido a uma progressiva escassez de opções em relação a esse sector. Se antigamente a posição de lateral esquerdo parecia a mais débil a nível mundial, agora parece que os papéis se inverteram e é o lado oposto que prossegue com problemas. No fundo, trata-se de um problema de base como é fácil de verificar, sendo que o mais natural hoje em dia parece ser a conversão de um extremo em lateral. Na verdade, um elemento rápido, com algum poder de aceleração pelo corredor e com alguma capacidade física parece ser o suficiente para captar a atenção daqueles que utilizam esse método. No entanto, o lugar carece de muito mais atributos que, por vezes, na ânsia de encontrar uma solução repentina, são esquecidos. A leitura de jogo, o posicionamento, o jogo aéreo ou simplesmente alguns princípios básicos que se aprendem na formação, tais como a necessidade de em algumas situações fechar por dentro ou de saber como agir no momento da primeira fase de construção, são tão ou mais importantes como a velocidade e a potência. Ainda assim, se existem casos de sucesso, algumas vezes bastante inesperado (Fábio Coentrão, recorde-se), tais como aquele proveniente da “escola de laterais valenciana”, noutras situações o mesmo não se sucede e a defensiva da respectiva equipa acaba por se ressentir. 

Um caso paradigmático disto mesmo mora na Luz. Maxi Pereira, um símbolo dos encarnados nos últimos anos, abandonou a capital rumo à Invicta e abriu um buraco no lado direito da defesa do Benfica. Rui Vitória deparou-se com um problema sério e, apesar das presenças de André Almeida e Sílvio no plantel, a escolha no primeiro jogo oficial recaiu sobre o jovem Nélson Semedo. Acontece que, ao contrário do que se poderia pensar, o jogador de (na altura) 20 anos não tremeu e não mais saiu do 11 do campeão nacional, ao ponto de ter chegado em tão curto espaço de tempo a internacional AA. Surpreendentemente, se olharmos ao historial de Semedo, em particular para o seu período de formação no Sintrense, é visível que nem sempre este foi o seu habitat táctico, sendo, posteriormente, realizado um excelente trabalho na formação secundária do Benfica no que diz respeito à redefinição do papel do, agora, lateral com raízes cabo-verdianas. No entanto, o futebol é pródigo em fatalidades e, se representar a Selecção seria certamente um sonho, esse dia acabou também por se tornar negativo por outros motivos. “Nelsinho” acabou por se lesionar com relativa gravidade e Rui Vitória deparava-se novamente com um problema que o tinha atormentado até ao início de Agosto. Posto isto, não podendo atacar o mercado, a solução passaria por Sílvio, André Almeida ou, em última instância, pelo campeão europeu sub-21 Lindelof. Sílvio foi o escolhido, mas devido à sua polivalência acabou deslocado para o outro flanco. Esperava-se agora a presença do equilibrado André Almeida no lado direito, mas, inesperadamente, Vitória lançava às feras o quase desconhecido Clésio Baúque, que até ao momento não era sequer dado como equacionável. A apreensão dos adeptos encarnados em torno do moçambicano de 21 anos foi grande, sobretudo porque não apresentava qualquer jogo na posição e na presente temporada contava apenas com 4 jogos (incompletos) na equipa B. Ainda assim, acabou por realizar uma partida competente em Aveiro perante um frágil Tondela, acabando por sair com problemas físicos devido ao pouco ritmo competitivo (não alinhava desde 30 de Setembro).

Tratou-se assim de uma opção estranha do timoneiro encarnado, lançando ao mar bravo um elemento que não experimentava competição há cerca de um mês. Todavia, caso mais estranho verificar-se-ia em Faro, no encontro que opunha Farense e Benfica B. A opção de Hélder Cristóvão para o posto de lateral direito recaiu, pasme-se, em Hildeberto Pereira, habitual avançado da segunda equipa do clube lisboeta. Os encarnados acabaram por ser derrotados, tendo o camisola 99 cumprido 83 minutos em campo na sua nova posição. Deste modo, a caça ao “novo Nélson Semedo” parece estar aberta, restando saber se se trata de uma opção vincada ou de um problema de mera falta de opções. O facto dos três elementos referidos terem características físicas semelhantes leva qualquer um a sentir-se tentado a acreditar na primeira opção. Será a tese correcta? Tem a palavra Rui Vitória.

Visão do Leitor: Rodrigo Ferreira

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