T'odio, Sergio

"Se reencarnasse como jogador de futebol, gostava de ser como Sergio Busquets" - Pep Guardiola

Vou directo ao assunto: odeio-te, Sergio Busquets. Odeio-te de tal forma que tive de exprimir esse ódio em texto, tal era a necessidade que eu tinha de eternizar este sentimento. Odeio-te tanto que escrevi o título destas linhas em Catalão, para que o entendesses sem a menor das dúvidas. Porque é que te odeio? Desde logo porque és o responsável por algo muito estranho que me sucede quando vejo os teu jogos. Uma espécie de patologia futebolística provocada por ti. Passo a explicar: normalmente, o espectador gosta de ver um jogo em que a bola ande perto das balizas, em que haja várias ocasiões de golo, em que os acontecimentos decorram naquela zona que faz toda a gente levantar-se da cadeira. Mas contigo é diferente. Quanto tu estas a jogar, eu quero que a bola esteja sempre na tua área de acção. Quero que ela vá flutuando pelo meio-campo, que não se aproxime das balizas. Quero ver-te acaricia-la, trata-la no teu jardim particular. E esse estranho prazer irrita-me. Tu és o responsável pelo facto de, em todos os jogos em que entras, eu ter uma indesejada vontade de ver o marcador 0-0, de querer que haja zero remates, até mesmo zero ataques. Tu fazes-me desejar que os jogos sejam uma eterna rabia à volta do círculo de meio-campo. De querer que quando a bola chega aos homens mais adiantados eles, subitamente, a passem para trás. Tu fazes-me ter em gosto em sentir um balde de água fria em plena tarde de praia (porque sei que se seguirá um orgásmico prazer futebolístico). E odeio-te por isso.

Por outro lado, e sobretudo, odeio-te porque não te consigo definir. Não consigo explicar com propriedade o que tu és. Fazes-me sentir impotente, incapaz, incompetente. O que és tu, protótipo de jogador? Como podes ser, ao mesmo tempo, pêndulo infalível e artista que privilegia a estética? Como podes ser, simultaneamente, perfeito a defender e capaz a atacar? Então mas não era suposto que os homens que jogam à frente da defesa se matassem a correr de um lado para o outro, que fossem “intensos”, que acabassem os jogos com sangue na cara? Que recusassem ter a bola em zonas “perigosas”, que tivesse prazer em chuta-las para a bancada? Tu contrarias tudo isto. Parece que, caminhando, estás em todo o lado. Sempre a cobertura perfeita. Silenciosamente presente. Tens uma técnica brutal, refinada, ao nível dos melhores, mas fazes gala em usa-la para o que é preciso. Recepção perfeita e passe limpo e redondo. Condução só quando é pertinente, porque, como diz Menotti, a bola passa-se, não se leva. Tu sabes que o homem de classe é o que mostra o Rolex quando lhe perguntam as horas, não aquele que o pavoneia pelas ruas sem qualquer propósito. E classe é o que não te falta. Ahhh….Mas és um médio-defensivo!…Porque raio tens classe? Odeio-te ainda mais porque em miúdo ouvi dizer que esses que “inventam” em zonas onde “Não se brinca” não podem jogar tão atrás no campo. Negas a vertigem, pregando a pausa e o toque, porque sabes que quando mais depressa a bola vai, mais depressa volta, e que o melhor caminho para a baliza raramente é uma linha recta.  Mas porque é que fazes mudar essas ideias fixas sobre o jogo? Odeio-te, Sergio.

À parte de todo este ódio, és o melhor médio-centro do mundo. Um dos jogadores que mais prazer me dá ao ver jogar.

"Donde confluyen
las rayas y los designios, 
el gran círculo
del deseo anuncia
puertos de extraña belleza"

Miquel Martí I Pol (1929-2003), Poeta Catalão

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Pedro Barata

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