Primeiro Rir, depois perceber

A reacção mais espontânea em relação ao novo reforço do Sporting, o ex-estoril Bruno César, é a de fazer humor baseado no excessivo perímetro abdominal do jogador. O brasileiro tem um perfil redondo, pouco condizente com o de um atleta profissional, parecendo mais talhado para derrubar uns rodízios e aviar umas fresquinhas do que para correr noventa minutos. Mas piadas à parte, algumas das críticas depreciativas até têm algo de injusto, e a própria contratação acaba por fazer sentido, naquilo que é a actual conjuntura do Sporting.

Para já, a fama de jogador lento e pesado é exagerada, sendo mais consequência de um mito urbano que foi sendo construído, do que propriamente realidade. De certo modo faz lembrar aquela ideia de que Pedro Barbosa tinha a velocidade de um caracol, ideia essa que era desfeita sempre que era possível ver o antigo médio do Vitória e Sporting ao vivo, a usar uma capacidade de aceleração que a partida não lhe era reconhecida. Bruno César, sem ter asas nos pés, tem uma boa capacidade de arranque e aceleração, o que juntamente com um remate fácil e rápida leitura de jogo, lhe permite ser forte nas acções de um contra um. Não terá características físicas que permitam sprints longos, mas em espaços reduzidos não lhe será complicado bater defesas, com ou sem bola.

Outra questão é a da necessidade ou pertinência desta aquisição. Sejamos claros, Bruno César não irá transferir o Sporting para outro patamar, ou transformar a equipa num potentado europeu. Mas para consumo interno, acaba por ser uma aposta interessante. É um jogador experimentado, já actuou num grande português, conhece os métodos do treinador, e tecnicamente possui argumentos que não abundam no conjunto leonino. Remate fácil (golos de fora da área são uma raridade em Alvalade) e capacidade de desequilíbrio nas acções individuais são qualidades que lhe são reconhecidas, e que podem fazer dele um ponto de referência ofensivo que não existe desde o desaparecimento de Carrillo.

Num campeonato como o português, em que teoricamente o Sporting passa boa parte do tempo em missão ofensiva, a falta de resistência e pulmão do Chuta-Chuta podem ser atenuadas pelo facto dele não ser obrigado a numerosas correrias em auxílio à sua defesa. Em jogos europeus, ou mesmo internos, frente a adversários mais exigentes, o brasileiro terá mais dificuldades em manter um rendimento constante, sendo que neste cenário é difícil vê-lo como algo mais do que uma arma para saltar do banco a partir do minuto sessenta, qual Toñito.

Mas descartando os prós e contras, as qualidades e defeitos, há três conclusões que parecem ser claras: A primeira é a de que Jorge Jesus controla a constituição do plantel, ao contrário do que acontecera com Marco Silva. Jesus terá verificado lacunas no conjunto, e indicado Bruno César como alguém que as poderia colmatar. Bruno de Carvalho não o terá mandado usar o Tanaka ou fazer regressar o Viola, tendo em vez disso procedido à realização do negócio, que financeiramente se deve enquadrar naquilo que são as reais possibilidades financeiras da Direcção. Em segundo lugar, esta contratação reflecte uma aposta no presente, e não no futuro. O Sporting quer vencer já, e tanto Gelson (de início, o teórico suplente de Carrillo e Ruiz) como Matheus (começou a época na B) não mostram capacidade de resposta imediata às necessidades da equipa. Uma alternativa seria a de ir buscar um jovem talento ao estrangeiro, o que faria sentido de um perspectiva de valorização para o futuro, mas isso também implicaria tempo de adaptação e paciência. Os dois jovens deverão continuar a ter tempo de jogo, mas a carga de responsabilidade será reduzida, e os seus estatutos deve passar de opção principal para alternativa. Por último, esta é claramente uma aposta para o mercado interno. As características técnicas e físicas do jogador, aliadas à sua experiência profissional, tornam-no numa referência quase que exclusivamente para as provas nacionais. Bruno César, desde que bem enquadrado no colectivo, pode fazer a diferença em muitos dos jogos da Liga, mas dificilmente será um factor diferenciador na Liga Europa. Este facto não é novidade, pois desde a debacle na Liga dos Campeões, prova relevante pelo dinheiro e pelo prestígio (mas não pelo aspecto desportivo, pois uma vitória seria quase que um milagre), que parece claro que a participação europeia é uma formalidade, e todas as miras estão apontadas para o título de campeão nacional.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

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