O momento é já

Imagem: Zerozero
Há quem faça do futebol uma ciência, mas a verdade é que uma partida pode ser irremediavelmente mudada por um único momento. Um momento imprevisível, improvável, irrepetível. A História do jogo está repleta de momentos que alteraram o curso de partidas, ou mesmo de competições. Heróis inesperados, vilões imediatos. Ou de como um Kelvin vem do nada para oferecer um título que parecia perdido, ou um Baggio atira para as nuvens um campeonato do Mundo. Uma decisão, uma execução, e tudo muda... irremediavelmente.

O último derby teve esses momentos. Pelo menos dois, um que foi, e outro que poderia ter sido. Apesar de ter sido, na sua maioria, um jogo de sentido único e de domínio intenso por parte do Sporting, o Benfica teve uma excelente hipótese de sair de Alvalade com mais razões para sorrir. Corria o minuto 63 quando a defesa leonina tem aquela que foi a sua única falha em todo o encontro, ficando Gaitan em boa posição para fazer golo. Apenas com Patrício pela frente, o argentino não fez aquilo que melhor sabe fazer, fintar e rematar, preferindo cavar uma grande penalidade, que para seu azar, não seria assinalada. Assim se perdeu a mais flagrante oportunidade do Benfica durante toda partida, e a chance de se colocar em vantagem numa altura em que o Sporting perdia algum fulgor físico. Caso Gaitan tivesse feito o que devia, provavelmente a análise do jogo passaria pela discussão de como o Sporting havia perdido "injustamente", ou de como o pragmatismo de Vitória batera finalmente a bazófia de Jorge Jesus. E tudo seria diferente... o sonho de repetir o Jamor continuaria vivo para o treinador do Benfica, que desse modo ganharia novo balão de oxigénio e outra margem de manobra, após finalmente matar um borrego que teima em engordar a cada confronto que passa. Porém, as coisas são o que são, e hoje Rui Vitória é ainda mais contestado, o seu futebol criticado, as suas opções desprezadas, e os resultados negativos inegáveis. Mas poucos ou nenhuns falam daquele momento, em que o melhor jogador da equipa não fez aquilo em que é melhor.

Mas já antes outro jogador fizera por ser decisivo, e não pelos melhores motivos. Slimani, que até acabou por marcar o golo que deu a vitória, tem uma atitude que deveria envergonhar qualquer profissional, e que podia prejudicar a sua equipa e desequilibrar um jogo que pendia claramente para o lado dos seus. Fala-se, claro, da agressão a Samaris. Lance completamente despropositado (e nada comparável àquele que envolveu o argelino e Júlio César, esse sim consequência de uma jogada de choque, em que qualquer uma das parte podia ter ficado maltratada), e que para além da violência usada, mostra uma inconsciência que pode e deve ser corrigida por quem treina e segue o atleta diariamente. Um lance estúpido, uma opção imbecil, poderia, caso tivesse o árbitro visto, ter reduzido o Sporting a dez elementos, e privado o conjunto da sua referência ofensiva. E esse momento podia ter sido o tal, aquele em que um jogo que vestia verde e branco de repente mudava de rumo, sem que nada o indicasse previamente. E Slimani seria o culpado, o único culpado de uma eventual derrota, embora no final o mais certo fosse opinar-se sobre a política de contratações, as opções tácticas de Jesus, ou aquela bola que Patrício deixou entrar pelo meio das pernas.

Discutam-se os onze iniciais, esquemas tácticos, jogos mentais, substituições, mudanças de posicionamento, papelinhos, berros ou instruções, mas num jogo de futebol um momento muda tudo. Se os dois casos citados tivessem desenlace diferente, nada seria igual.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

Etiquetas: