O homem isolado que não encontra o rumo

Gent, Bélgica. Uma equipa sem ideias, à deriva, joga de forma desagarrada frente ao conjunto local. Apesar de contar com nomes muito mais cotados, como campeões e vice-campeões do mundo, esta equipa é completamente dominada pelo rival, que vai criando sucessivamente perigo  até chegar ao golo. Apesar de contar com diversas soluções ofensivas de nível, a equipa mais cotada demorou cerca de 50 minutos em rematar à baliza do adversário, tendo raras vezes chegado com qualidade ao último terço. Este é um cenário que se tem repetido sucessivamente ao longo dos últimos meses, sem qualquer sinal de melhoria, de progresso ou sem se ver, sequer, uma intenção de caminhar face a algo distinto da mediocridade reinante. Em poucas linhas, esta é a descrição dos últimos meses do Valência treinado por Nuno Espírito Santo. 

Em Maio de 2014, o Valência, uma das equipas com mais história de Espanha, vivia uma situação muito complicada, com dificuldades financeiras que podiam colocar em causa a continuidade do clube ao mais alto nível. É nesse momento que surge Peter Lim, um Milionário de Singapura que passou a deter cerca de 70% dos Che, proporcionando uma injecção de capital que, com a ajuda do empresário Jorge Mendes, tinha a intenção de recolocar os Morcegos no topo do futebol Espanhol e Europeu. Da mão do agente português chegou Nuno Espírito Santo, treinador que havia realizado um bom trabalho no Rio Ave, e que viu a equipa ser reforçada com nomes como Mustafi, Otamendi, Rodrigo, Negredo, De Paul (em Janeiro chegou Enzo Perez) ou os jovens portugueses João Cancelo e André Gomes. Sem competições Europeias, a equipa fez uma liga relativamente positiva, conseguindo, na linha de meta (leia-se com um golo salvador de Paco Alcácer na parte final da última jornada) a qualificação para o Playoff de apuramento para a Champions League. Ora, a segunda temporada apresentava-se com um desafio, não só pela presença Europeia mas também pelo desejo de subir um degrau dentro do panorama futebolístico do país vizinho. Desejava-se ainda que, com um ano de trabalho, a qualidade futebolística fosse melhorada, já que durante os primeiros meses de trabalho a equipa mostrou uma ideia de jogo pouco atraente, com muitas dificuldades quando tinha de assumir o jogo, sentindo-se mais confortável em confrontos em que podia baixar o bloco e explorar os espaços e as bolas paradas (o que levou a boas exibições frente a Real Madrid, Barcelona ou Atlético). 

Mas no Verão tudo começou a ser turbulento no plano extra-desportivo. O director-desportivo Rufete e o Presidente executivo Amadeo Salvo demitiram-se, em desacordo com a política exercida pelo trio NES-Mendes-Lim, os quais, a partir desse momento, passaram a ser, indiscutivelmente, donos e senhores do clube. A questão é que Mendes não vive o dia-a-dia do clube e Lim pouco ou nada entende de futebol, pelo que toda a pressão sobre o quotidiano desportivo do clube, toda a contestação pelo que se passa dentro do campo, passou a recair sobre a figura do treinador Nuno Espírito Santo. Para lá desta questão, o Verão ficou marcado pela novela Otamendi, cuja transferência desiludiu os adeptos, que pensavam que a venda do clube ao capital externo significava o fim da necessidade de vender os melhores jogadores, desilusão essa que aumentou ao verem que os reforços trazidos no Verão foram jovens promissores como Santi Mina, Danilo ou Bakkali, e não nomes sonantes que aumentassem o nível do conjunto. 

Na sequência deste periodo de defeso conturbado, que deixou logo no ar um clima de desconfiança, a chegada da competição não melhorou a situação, tendo piorado a mesma. Apesar da qualificação para a fase de grupos da Champions, a equipa começou mal o campeonato, não só em termos pontuais  ( está em sétimo, com quinze pontos em dez jogos, mas já a uma mão-cheia dos lugares que dão acesso à Liga Milionária, ocupados por clubes com orçamentos bem menores como o Villareal e o Celta), mas, sobretudo, pelo mau futebol jogado. Com um trabalho de cerca de 16 meses com o mesmo treinador, a equipa parece ainda não saber qual a sua ideia, quais são as suas intenções dentro de campo. A qualidade na saída de bola é nula, a circulação parece que não é trabalhada, e o processo ofensivo baseia-se em rasgos de individualidades. A juntar a isto, esta falta de bom funcionamento colectivo leva a uma ideia de regressão de certos jogadores, como Gayà, que não estão inseridos num modelo que os estimule e desenvolva. 

Nuno parece incapaz de melhorar a equipa, de lhe dar um rumo futebolístico, dando mesmo a ideia de se ter perdido no seu próprio labirinto, algo que se vê pela incoerência das escolhas, com jogadores que entram e saem do onze sem aparente justificação (ao longo dos meses isso sucedeu com Piatti, De Paul ou Feghouli). Desgastado por polémicas (sendo a mais recente com Negredo, que não sai sequer da bancada), sem ninguém que o defenda (os "donos" Mendes e Lim estão demasiados distantes), e com um discurso baseado em "atirar areia para os olhos" (em Espanha já é recorrente dizer-se que toda a gente viu um jogo e NES outro), se os resultados continuarem a acompanhar o fraco nível de jogo, a aventura de Nuno no Mestalla (estádio que já perdeu a paciência com o Português) pode estar perto do fim.

Pedro Barata

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