12: Aplausos

Ligas de futebol assemelham-se a séries televisivas. Várias temporadas, muitas jornadas (ou episódios) e um sem-número de peripécias a desenrolar-se. Protagonistas e antagonistas trocam de papéis no decorrer da história. Emergem heróis e vilões memoráveis. Mas, por vezes, o destaque é outro. O destaque é a surpresa. Na ficção, é aquele ator cuja atuação não suscitava tanta expetativa à partida mas acaba roubando a cena ou aquela história que, no meio de tantas outras, acaba por atrair a maioria dos holofotes. Num campeonato, falamos da equipa que deixa qualquer treinador de bancada de queixo caído. Em termos de Premier League, leia-se Leicester City. Pessoalmente, apontava-os como um dos candidatos ao (nada) famoso “bottom 3”. À aparente menor valia do seu plantel juntava-se um treinador que para além de considerar já ultrapassado e vindo de um trabalho péssimo ao serviço da Grécia, poderia passar a viver com a sombra de Pearson atrás de si. Poderia… mas a realidade é outra. Se é verdade que os Foxes não são propriamente fortes no momento defensivo, compensam essa lacuna com uma veia goleadora pouco comum, sabendo abordar da forma ideal cada momento de jogo e mostrando-se letais na hora de atacar. A vitória ao Watford, um dos conjuntos mais “chatos” da Premiership, vem de encontro a isso. Nota ainda para as individualidades em grande plano. A maioria num nível muito acima do expectável, existindo dois nomes inevitáveis - Mahrez e Vardy. São, respetivamente, o melhor extremo e ponta-de-lança do campeonato. O inglês inclusive está numa sequência absurda de 9 jornadas consecutivas a marcar, um feito só superado por Van Nistelrooy em 2002-2003. Na perspetiva da manutenção, o mais difícil foi já ultrapassado. Mas talvez esta seja uma perspetiva já antiquada atendendo aos resultados recentes. E se a fasquia for sinónimo de Europa, quiçá de Champions, ou num cenário paradisíaco mesmo de título, a parte mais difícil ainda agora começou. Há um ano, o Southampton, por exemplo, não aguentou a pressão. E é bom notar que, apesar da excelente performance, os Foxes só venceram uma das equipas do top 10 da edição 2014/15 da Premier League. Sem tirar mérito naturalmente, pois imaginar um Leicester a apenas um ponto da liderança passadas doze jornadas antes da bola começar a rolar sempre foi uma utopia.

As distâncias encurtaram-se ainda mais ao cabo desta ronda. Isto, porque City e Arsenal vacilaram. E ao contrário do ocorrido na semana anterior, foram os citizens a dar tudo de si enquanto os Gunners bem podem agradecer pelo banho de bola sofrido dos Spurs ter-lhes custado apenas dois pontos. Quem perdeu mesmo foi, novamente, o Chelsea, ainda sob a liderança de Mourinho, mesmo que a ver do hotel. Notícia foi os Blues até terem feito mais pelos três pontos que o Stoke. Quem também pode-se queixar de injustiça, apesar deste ser um termo sempre muito subjetivo no futebol, é o Bournemouth. Num dos jogos mais atípicos da história da Premier League, o Newcastle precisou de um remate enquadrado (contra 10) para somar o seu primeiro triunfo fora de casa. Os Cherries caíram assim para a zona de descida que viu o Sunderland afundar-se ainda mais ao perder também pela margem mínima com um Southampton em crescendo. Quem já pôde fazer a festa com os seus adeptos foi o Norwich. 1-0 também, ao Swansea, que apesar de continuar a mostrar várias vezes mais números que o adversário, acaba por saír a perder. O Manchester United, numa versão muito semelhante ao Chelsea do último ano, continua a ganhar, sem sofrer, mas também sem encantar. Nota final para o primeiro escorregão de Klopp. Após três vitórias em menos de dez dias, não deixou de ser importante para fazer os adeptos do Liverpool voltarem a ter os pés bem assentes à terra.

Onze Ideal da Jornada 12 da Premier League: Elliot (Newcastle); Johnson (Stoke); Stones (Everton); Dann (Palace); Rose (Tottenham); Veretout (Villa); Cabaye (Palace); Özil (Arsenal); Shaqiri (Stoke); Tadić (Southampton) e Vardy (Leicester).
MVP: Elliot (Newcastle). Se já é incomum ver um guarda-redes como maior protagonista de uma jornada, mais fora do vulgar se torna o cenário ao percebemos que nem sequer se trata de um habitual titular. Na ausência do indiscutível Krul, foi o guarda-redes irlandês a tomar as rédeas da baliza. E de que maneira. Com uma mão cheia de defesas de alto nível, mais alguns dedos da outra, provavelmente não foi suficiente para relegar o holandês para o banco mas certamente já tem uma linda história para no futuro contar aos netos.
Jogador a Seguir: Lingard (Manchester United). Foi chegar, ver e... roubar o lugar. Após passar de empréstimo em empréstimo por equipas de escalões inferiores, o jovem extremo, que é outra das grandes promessas de "Os Três Leões", parece querer assegurar com unhas e dentes esta oportunidade no clube que o formou, oferecida por Van Gaal. Vai aproveitando um início mais intermitente de Depay neste seu período de adaptação e aproveitou da melhor forma a titularidade, contribuindo com um golo. Paira a dúvida se vai aumentar o rendimento, ou, assim como tantos outros extremos na história recente dos Red Devils, acaba por eclipsar-se com o tempo.
Treinador da Jornada: Alan Pardew (Crystal Palace)
A Desilusão: Liverpool. Os triunfos, principalmente o registado em Londres, elevaram imenso as expatativas dos adeptos. Mas esta derrota (frente ao Palace), ou melhor, este balde de água fria, vem acalmar um pouco os ânimos. São notáveis algumas melhorias desde a chegada de Klopp, sobretudo em termos de dinâmica de jogo. Mas mais importante do que isso, é o rigor. E isso foi tudo o que não existiu na defesa dos Reds em qualquer um dos golos sofridos. Mau posicionamento, erros individuais e apatia ditaram um resultado que conforme as ocorrências do encontro, poderia ter sido bem diferente.
Menção Honrosa: Shawcross, ou… Showcross. Há pessoas que nunca mudam. Diego Costa é uma delas. No passado fim-de-semana decidiu inovar e numa atitude nada elegante com um colega de profissão deu a entender que o central do Stoke cheirava mal. Em condições normais, estava dado o ponto de partida para novo motim. Mas o bom-senso que faltou ao atacante do Chelsea reinou na família Shawcross. O sorriso do defesa na partida seguiu-se de uma foto publicada, já depois da partida, com o jogador a segurar um desodorizante sob uma legenda da namorada a afirmar ter certeza de que o parceiro tinha cumprido esse requisito básico de higiene. E também através do futebol podemos concluir que a ironia é mesmo a melhor forma de contrariar a ignorância e ao mesmo tempo demonstrar classe. Classe e show...cross.

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