Uma Tragédia Milanesa

O jogo aproxima-se do fim. Em mais uma partida insípida em San Siro, o AC Milan vai empatando ante um Sassuolo reduzido a dez elementos desde os 30 minutos. As fragilidades da turma de Siniša Mihajlović são por demais evidentes; a defesa é permeável, o meio campo inoperante e o ataque não faz mossa. Mas eis que, a caminho do fim, o substituto Luiz Adriano finaliza adequadamente, garantindo os três pontos aos caseiros. A 9.ª jornada foi assim, sofrível, e a 1.0ª não foi muito melhor, com mais uma vitória, é verdade, mas com as fragilidades supramencionadas a permanecerem inalteradas (se bem que a titularidade, pela segunda vez consecutiva, de um tal Gianluigi Donnarumma, de 16 anos, faça esquecer tudo o resto). Por estes dias, o 8.º posto na classificação geral espelha bem o que o 7 vezes campeão europeu é no presente: uma sombra, quase uma paródia de si mesmo. O rigor e paixão de outros tempos deu lugar à desordem e desinteresse, é o inferno que aquele povo tão bem conhece.

Além de berço de Dante Alighieri, Leonardo da Vinci e Michelangelo, Itália, essa bela nação, também é reconhecida pelo oposto, as tragédias. A erupção do Vesúvio, a queda do Império Romano, a Segunda Guerra Mundial e, mais recentemente, o Costa Concordia. O futebol tende a corroborar o panorama cultural e social, e nos últimos 100 anos são vários os casos de tragédias que ensombraram o desporto-rei transalpino: a morte de toda a equipa principal do “Grande Torino” (tetracampeão italiano), após queda do avião que os transportava após jogo contra o Benfica; o escândalo Totonero, de manipulação de resultados, que em 1980 atirou Milan e Lazio para a Serie B; em 2006, o caso semelhante do Calciopoli, acusando vários emblemas de nomeada de manipularem jogos para as casas de aposta, culminando na despromoção e fim de domínio doméstico da Juventus. Contudo, á exceção do Il Toro, tanto AC Milan (a partir de 1986, com Berlusconi a assumir a liderança administrativa e Arrigo Sacchi a técnica) como a Vecchia Signora (desde 2011, com Antonio Conte como treinador) conseguiram uma extraordinária recuperação que os levou a, passada meia dúzia de anos de descida aos infernos, a “tocarem o céu”. Sacchi, com um futebol avassalador e único, bem substituido por Fabio Capello (quem não se recorda do 4-0 ao Barcelona de Cruyff?), transformou os milaneses numa máquina quase perfeita, da mesma forma que Conte e Allegri vêm tornando a Juve, um emblema que, agora sim, faz jus à sua própria história.

Com a saída de Carlo Ancelotti e o final de carreira/decadência de várias lendas (Paolo Maldini, Nesta, Gattuso, Seedorf, Inzaghi…) começou a queda do AC Milan, gradual, é certo, mas que agora se revela em toda a sua plenitude. Incapacidade e negligência no momento de rejuvenescer e renovar o plantel, lapso de organização e disciplina são apenas alguns dos motivos que podem explicar o desastre em que se tornou o emblema milanês sendo, no entanto, bizarro que uma instituição com capacidade financeira tão apurada e adeptos tão fiéis tenha assim caído num poço “sem fundo”. Enfim, é uma outra tragédia italiana, incompreensível e nefasta, mas não é altura de cometer haraquíri; se há algo de positivo que as boas e velhas tragédias lançam, são heróis e, estes, dificilmente são esquecidos.

Eneias, Júlio César, Dante; Sacchi, Berlusconi, Maldini. O tempo urge; Milão aguarda ansiosa e devotamente por um novo líder que faça o San Siro erguer-se das ruínas em que se encontra. Há um cadeirão livre junto às glórias clássicas rossoneri – quem o ocupará?

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess

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