O Homem que Soube Esperar

O século XXI marcou a afirmação total do futebol português no panorama internacional. Em apenas 15 anos, o desporto-rei do nosso país já conseguiu feitos não logrados nos 100 anos anteriores. Um vencedor da Liga dos Campeões, duas vezes vencedor da Taça UEFA/Liga Europa, quatro vezes finalista vencido desta última, final no Euro 2004, quarto lugar no Mundial 2006, entre outros. Intimamente ligado com o sucesso coletivo, vem o individual, tendo este pequeno país “à beira-mar plantado” 4 bolas de ouro, com jogadores de nível mundial a espalhar a sua magia por todo o mundo. Além do mais, Portugal conseguiu consagrar-se como, talvez, a melhor escola de treinadores a nível global. A derradeira temporada comprovou esta teoria, com técnicos lusos a destacarem-se de uma ponta à outra do “Velho Continente”. Nuno Espírito Santo silenciou os críticos no Valencia, ao alcançar o apuramento para a Champions; Leonardo Jardim alcançou excelentes resultados com uma equipa limitada; José Mourinho recuperou a Premier League; André Villas-Boas assegurou a Liga Russa.

Contudo, esta época, esses mesmos timoneiros têm desiludido, passando de “bestiais a bestas”, desprestigiando ligeiramente o estatuto de técnico luso. Agregando a estes os fracassos ribombantes de Bruno Ribeiro no Ludogorets da Bulgária e de Domingos Paciência no APOEL do Chipre, conclui-se que esta, não está a ser, claramente, a melhor temporada para os portugueses. Porém, há um nome que contraria esta tendência: Paulo Sousa.

Queens Park Rangers, Swansea, Leicester (todos no Championship), Videoton, Maccabi Tel-Aviv, Basileia, Fiorentina. Por ordem, são estes os emblemas já dirigidos pelo antigo centrocampista. Como bem se pode constatar, a carreira de Paulo Sousa tem-se revelado sustentada, com alguns fracassos, é certo, mas igualmente com diversos sucessos, que o levam a orientar, nesta fase, o 1.º classificado da Série A. Confirmado a 21 de junho deste ano, o português recebia uma herança pesada, uma vez que o seu antecessor, Vincenzo Montella, havia deixado boas indicações em Florença. Além do mais, a equipa ficou claramente depauperada, com saídas de elementos fulcrais, casos de Neto, Savic, Joaquín e Salah o que, associado a uma incursão inconstante no mercado, não fazia augurar facilidades ao trabalho do bicampeão europeu. Porém, perante a incerteza inicial, o viseense tem dado uma excelente reação. Começou a campanha com uma vitória caseira sobre o AC Milan por 2-0 e, por volta da 7.ª jornada, já gelou o renascido Inter de Milão, no Giuseppe Meazza, por esclarecedores 1-4 e lidera, com dois pontos para este último, a liga italiana, somando seis triunfos e apenas uma derrota. Com resultados tão convincentes e surpreendentes, não é de estranhar o entusiasmo vivido por estes dias no Artemio Franchi e em Itália em geral, e a verdade é que o timoneiro “viola” vai suplantando obstáculos que pareciam intransponíveis (e domingo tem mais um, com a deslocação ao San Paolo), fazendo sonhar toda uma cidade com um troféu que falta às vitrinas do clube desde 1969.

Com um percurso enquanto treinador consistente, fazendo jus à sua carreira de jogador, Paulo Sousa surge atualmente como uma certeza no que concerne a técnicos lusitanos. Pode não ter a exuberância de José Mourinho ou a ventura de Nuno Espírito Santo, mas faz-se valer do mérito próprio e de características de assaz importância, como a paciência porque, por vezes, saber esperar é uma arte.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess

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