O Chamamento da América

No seu poema “Salut au Monde”, publicado em 1860, o célebre Walt Whitman exalta os estrangeiros de todo o mundo a imigrarem para a sua América, com o intuito de prosperarem, enriquecerem, enfim, viver o “American Dream”. Tal dito, tal feito, e nas décadas seguintes, milhares de pessoas, representantes dos seis continentes, partem rumo aos EUA. Alguns tiveram sucesso, outros não, mas a lenda ficou.

No âmbito do futebol, também se verificou um “êxodo” para os “States”, se bem que apenas mais de um século mais tarde. Nos anos 70/início de 80, jogadores de escala planetária como Pelé, Franz Beckenbauer, Johan Cruyff e Eusébio atracam em várias cidades emblemáticas do país, como Nova Iorque e Los Angeles, praticamente criando o “soccer”. Contudo, com o avançar do tempo, o “efeito Pelé” foi-se diluindo e, apesar da realização do Campeonato do Mundo naquela nação, em 1994, o desporto-rei foi perdendo adeptos e preponderância, acentuando-se nos primeiros anos do século XXI.

No entanto, a partir de 2007 a situação inverteu-se de modo extraordinário. A contratação, por parte dos LA Galaxy, de David Beckham, um dos futebolistas mais mediáticos a nível global, fez renascer o interesse e a atração pelo “soccer”, abrindo caminho para o que é hoje: um desporto ainda longe dos de topo na América, é certo, mas já perfeitamente prestigiante para absorver atenções por parte do público geral norte-americano, como ficou provado pela reação destes ao Mundial 2014. Frank Lampard, Andrea Pirlo, Kaká, Andrea Pirlo são os craques mais reconhecidos que povoam a MLS mas, neste momento, o nome que mais se destaca é outro: Sebastian Giovinco.

Formado na Juventus, Giovinco fez a transição para sénior durante a fase mais negra na história da equipa de Turim. A sua estreia, aliás, pela Vecchia Signora é feita na Serie B, na temporada 2006/07, participando em três jogos. No ano seguinte, contudo, é cedido ao Empoli, onde previsivelmente teria mais e melhores oportunidades para se afirmar, o que sucederá, conseguindo o pequeno italiano recolher muitos elogios e sendo, desde muito cedo, comparado a Alessandro Del Piero. Porém, será apenas em 2012/13, e após uma passagem proveitosa pelo Parma, com Antonio Conte no comando bianconeri que Giovinco espalhará o seu perfume no clube do seu coração. Fazendo uso da velocidade e de um apurado virtuosismo técnico, o atacante transalpino tornou-se num dos elementos mais importantes de uma equipa em exponencial recuperação. Mas, como noutros momentos da sua carreira, Sebastian voltou a eclipsar-se, perdendo fulgor e preponderância, até à sua saída, esta época, para a MLS, onde representaria o Toronto FC. Contando apenas com 28 anos, a decisão do pequeno genial turinense em embarcar numa aventura milionária mas periférica, em detrimento de prosseguir a carreira no “Velho Continente”, foi criticada, pois muitos viam nesta mudança o fim prematuro da carreira de um jogador que tanto prometera. Hoje, poucos são os que mantêm este ponto de vista perante a explosão exibicional que o transalpino tem revelado.

Giovinco vive, por estes dias, em estado de graça. Apontou um golo monumental, que colocou o Toronto FC no playoff da MLS pela primeira vez na sua história, isto depois de ter rubricado uma excelente exibição ao serviço da seleção italiana, provando ser um elemento capaz de ajudar a squadra azzurra no Europeu a realizar-se no próximo ano em França. Ao invés do que muitos haviam prognosticado, afinal, o ingresso do talentoso atacante no Canadá foi extremamente proveitoso para a sua carreira. Depois de ter realizado apenas 11 jogos pela Juve, na temporada transata, seguramente os pretendentes não abundariam (quiçá emblemas de média dimensão em Itália, Espanha, Inglaterra), e nem seria dado adquirido que fosse estrela da companhia num emblema europeu. Hoje, no entanto, se desejar poderá regressar à Europa pela porta grande, com equipas de grande projeção interessadas no seu concurso. Vejo, por exemplo, este prodígio como figura de cartaz numa equipa mediana da Premier League ou, quem sabe, como 12º jogador num Arsenal ou Liverpool, sempre hábil de causar muitos estragos nas defensivas adversárias.

A afirmação do piccolo Del Piero na MLS pode alterar o paradigma desta competição. De liga conhecida por albergar apenas velhas lendas, pode passar a uma competição destinada, também, a jogadores, sub-30 anos, em busca de uma segunda vida que, por algum motivo, necessitam para se relançar ao mais alto nível. Numa prova cada vez mais competitiva e com maior peso mediático, nos dias que correm ingressar na Major League Soccer já não pode ser visto como o fim; é um passo atrás para poder dar dois em frente, é, enfim, beneficiar de segundas oportunidades na terra delas – é o sonho americano na forma de bola de futebol.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess

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