O anti-craque: uma Lenda à parte

O futebol, a maior e mais relevante expressão cultural do nosso tempo, foi tendo, ao longo do último século, diversas lendas. Homens que, à custa de feitos dentro de um campo de jogo, tornaram-se imortais para legiões de fãs, que perpetuarão as suas façanhas. Essas lendas, desde Di Stefano a Ronaldo, desde Puskas a Messi, desde Maradona a Pelé,  assumem quase todas o estatuto de semi-deuses, não só por aquilo que os envolve (com a devida contextualização das épocas, todos assumiram / assumem um local num pedestal que está como que intocável para a maioria dos mortais), mas, sobretudo, por serem sobre-dotados, homens que, desde tenra idade, revelaram invulgares aptidões, capacidades físicas e técnicas que os elevaram ao patamar dos chamados "predestinados".

Ora, uma das lendas da história do jogo anunciou, por estes dias, a sua retirada dos relvados: trata-se de Raúl Gonzalez Blanco, histórico avançado e capitão do Real Madrid. Bandeira suprema daquele que é, para muitos, o maior clube da história do jogo, Raúl deixou em Chamartin um rasto de saudade e glória, o qual conseguiu trasladar para as suas passagens pela Alemanha, Médio Oriente e EUA, já numa fase final da carreira (apesar de ter sempre rendido a alto nível). A esta altura estará o leitor a perguntar o que terá o preâmbulo do primeiro parágrafo a ver com esta abordagem ao lendário capitão Merengue. Pois bem, é que Raúl, neste século XXI recheado de idolatria da fama e do dinheiro, soube sempre ser um craque em qualidade e valores. Levando à letra os princípios fundadores do clube do Santiago Bernabéu, o número sete foi um atleta nobre, leal, que deu a mão quando se viu vencido e que tentou sempre marcar a diferença pela lealdade e respeito pelo jogo, estando a ganhar ou a perder. Não se deixando nunca seduzir pela fama ou por uma notoriedade inerente ao exercício de uma profissão apregradora de massas, Raúl adoptou o estatuto de lenda Branca como quem leva a cabo uma tarefa que lhe estava destinada desde o berço.

Mas Raúl não foi só o craque que negou a idolatria do dinheiro, a ditadura das capas de revistas e do dinheiro. Passando a um plano meramente desportivo, Raúl é um dos casos mais interessantes das últimas décadas do futebol Mundial. Isto porque não sendo o jogador com mais técnica, não sendo o elemento mais rápido ou o homem mais forte, Raúl sempre se conseguiu impor ao mais alto nível. Porquê? Porque, como diz Valdano, o homem que, sendo Raúl um adolescente, o lançou na primeira equipa do Real, Raúl é um "craque mental". Um atleta que sabe explorar os seus recursos como muito poucos. Talvez mesmo por nunca ter sido o mais hábil, o mais potente ou o mais veloz,  aprimou uma série de qualidades que o permitiram contornar certas limitações intrinsecas, as quais, com o treino, foram melhoradas (claro que, em termos técnicos, não seno o Espanhol um Zidane, foi ficando um atleta cada vez mais evoluído). Raúl é um craque mental porque fez das fraquezas forças, demonstrando que no jogo Moderno não é preciso ter condições naturais de excepção para ser uma figura de primeiro nível.

Com a despedida de Raúl, abandona o jogo um dos últimos românticos do mesmo. Um jogador de outra época, não só pela nobreza no jogo mas pelo amor a umas cores. Mas abandona também um exemplo dentro da história do futebol, a prova de que o futebol se começa jogar na cabeça e termina nos pés, e não o contrário.

Pedro Barata

Etiquetas: ,