Futebol à Prova de Bala

Quando a Guerra Civil eclodiu na Síria, em 2011, o futebol nacional atravessava um momento bastante auspicioso. A selecção despedia-se da Taça das Nações Asiáticas, 15 anos depois da sua última presença na competição, e um ano mais tarde, esta mesma selecção, conquistaria aquele que seria o seu primeiro, e até hoje, único troféu no seu palmarés: o campeonato da Federação de Futebol da Ásia Ocidental, no qual participam todas as federações pertencentes ao Médio Oriente, nomeadamente, a Arábia Saudita e o Irão, duas das nações mais tituladas na história do futebol asiático.

Porém, à medida que o conflito no país se intensificava, também o futebol se revestia de um cenário devastador. O campeonato nacional acabou por ser interrompido; os estádios transformaram-se em bases militares; os clubes não conseguiam reunir verbas para pagar os salários aos seus jogadores; os atletas, privados de competir e temendo pela sua segurança, abandonaram o país em busca de novos desafios; outros penduraram as chuteiras para se associarem às forças rebeldes no combate ao regime de Bashar al-Assad; e a selecção nacional foi quem mais sofreu com tudo isto.

Em Agosto de 2011, a FIFA excluiu a equipa nacional da fase de apuramento para o Campeonato do Mundo do Brasil, punindo a utilização irregular de George Mourad, antigo jogador do Portimonense, durante a segunda ronda de qualificação, na qual a Síria se tinha inicialmente superiorizado ao Tadjiquistão por 6-2. Em 2013, quando a selecção iniciou a qualificação para a Taça das Nações Asiáticas, as marcas da guerra já eram demasiado profundas para poderem ser mascaradas. Um terceiro lugar com 8 pontos de diferença para a segunda classificada Jordânia, foi o melhor que a Síria conseguiu fazer, falhando de forma redundante o apuramento para a fase final, que se disputou no início deste ano em solo australiano. Como consequência disso mesmo, a Síria atingiu em Setembro de 2014, a sua posição mais baixa de sempre no ranking FIFA: um 152.º lugar, que a colocou atrás de nações sem qualquer tipo de expressão futebolística como o Myanmar ou as Maldivas.

E foi precisamente aqui, que se deu um ponto de viragem na história mais recente do futebol sírio. Primeiro com Muhannad Al Fakeer, e desde Janeiro, sob o comando de Fajr Ibrahim, que reassumiu o posto de seleccionador nacional, a Síria encarreirou numa série de 9 jogos sem perder, que a catapultaram, no início do presente mês, para o 123º lugar do ranking FIFA, antes de conhecer o sabor da derrota, pela primeira vez, em mais de um ano, quando a selecção de Omã lhe levou a melhor num encontro amigável, disputado no passado dia 2.

Entretanto, também já a qualificação para o próximo Campeonato do Mundo, que terá lugar na Rússia, tinha arrancado. Integrada no Grupo E, a Síria entrou a todo o gás, impondo uma goleada por 6-0 ao Afeganistão. Em Setembro, mais duas vitórias: primeiro, um triunfo arrancado a ferros na “recepção” à Singapura (a Síria tem disputado todos os seus jogos em Omã), e depois, nova goleada pelos mesmos números da ronda inaugural (6-0) sobre o Camboja. À entrada para a quarta jornada, o saldo não poderia ser mais animador: 3 jogos, 3 vitórias, 9 pontos conquistados, 13 golos marcados, nenhum sofrido, e a liderança do grupo E, com 2 pontos de vantagem sobre o Japão, o que reforçou a expectativa para o encontro que colocou frente-a-frente estas duas equipas na última quinta-feira.

A equipa japonesa não se ressentiu na condição de favorito, e fez valer a superior qualidade técnica dos seus jogadores para controlar a posse de bola e impor um domínio territorial durante os 90 minutos, salvo raros períodos em que a equipa da casa pareceu dispor de alguns espaços para criar perigo, mas até nessas situações, os samurais eram rápidos o suficiente para corrigirem alguns erros posicionais, e assim, anularem qualquer tipo de ameaça para a sua baliza. No entanto, os três golos do Japão só surgiram durante o segundo tempo, até porque a sempre aguerrida Síria foi capaz de controlar todas as investidas dos visitantes na etapa inicial. O primeiro golo surgiu ao minuto 55, através de uma grande penalidade muito discutível e convertida por Keisuke Honda. Ao minuto 70, o Japão dilatou a vantagem por intermédio de Shinji Okazaki, pouco minutos depois de Raja Rafe – melhor marcador na história da selecção síria – entrar em campo. E foi já, num período de maior relaxamento dos visitantes, que a Síria dispôs de um par de ocasiões flagrantes para reduzir, ambas para lá do minuto 80, antes de Takashi Usami – lançado ao minuto 66 – sentenciar o resultado a favor da equipa nipónica.

O ponta-de-lança Sanharib Malki, de 31 anos, é o jogador mais reconhecido desta selecção e o único com provas dadas num dos principais campeonatos do futebol europeu. Em 2012/13, sagrou-se, juntamente com Luuk de Jong, o segundo melhor marcador da Eredivisie, com 25 golos, distantes dos 32 de Bas Dost. Representava o Roda JC, mas actualmente é companheiro de equipa de Castro no Kasimpasa, da Turquia. É, juntamente com o guarda-redes Mosab Balhous (capitão de equipa e o mais internacional na história da selecção), um dos seis resistentes da equipa que marcou presença na fase final da Taça das Nações Asiáticas em 2011, no Qatar, na qual a equipa síria não conseguiu ir além da fase de grupos, apesar do triunfo sobre a Arábia Saudita na jornada inaugural.

No entanto, são as recentes exibições de Omar Kharbin, que mais elogios têm recolhido. Um jogador virtuoso do ponto de vista técnico mas objectivo naquilo que realmente faz a diferença: o golo. E ele já soma 3 nesta fase de qualificação, aos quais lhes acrescenta duas assistências. Os seus 21 anos tornam-no no elemento mais jovem desta comitiva. É um avançado que privilegia movimentos interiores a partir do corredor esquerdo, que lhe permitam enquadrar-se com a baliza. Abdelrazaq Al Hussain (criativo de 29 anos), Mahmoud Al Mawas (médio ofensivo de 22 anos, com um apurado instinto goleador) e o veterano Raja Rafe (melhor marcador do campeonato nacional por 5 ocasiões) completam o arsenal ofensivo desta equipa.

Mas nem só dos sucessos da selecção principal vive o futebol sírio. A equipa olímpica apurou-se em Março para o Campeonato Asiático da categoria, no qual serão encontrados os três representantes da Confederação Asiática de Futebol (AFC) nos próximos Jogos Olímpicos. A equipa síria levou a melhor sobre o Uzbequistão, a Índia e o Bangladesh, terminando na liderança do Grupo E, com 9 pontos e Omar Kharbin foi o melhor marcador entre os 10 grupos de apuramento, com 6 golos na sua conta pessoal. A fase final terá lugar no próximo mês de Janeiro e só um lugar no pódio garantirá um bilhete para o Rio de Janeiro. A tarefa não se afigura fácil, até porque a Síria precisará de ultrapassar, numa primeira instância, o anfitrião Qatar, o Irão e a China, naquele que também poderia ser apelidado como o “grupo da morte”.

E como não há duas sem três, também a selecção mais jovem, a de Sub-17, vive um momento de especial fulgor, sublinhado com o apuramento para o Campeonato do Mundo, que irá decorrer entre os próximos dias 17 de Outubro e 8 de Novembro, no Chile. As jovens Águias conseguiram-no depois de atingirem as meias-finais da Taça Asiática de Sub-16, disputada no último ano na Tailândia. É verdade que caíram com estrondo nas meias-finais – a Coreia do Sul, finalista vencida, não deixou créditos por mãos alheias e goleou por expressivos 7-1 – mas o mais importante já tinha sido conseguido: o apuramento para a fase final. Algo que não é inédito para esta selecção.

Em 2007, na Coreia do Sul, a equipa síria superou todas as expectativas e bateu-se de igual para igual num grupo apertadíssimo com a todo-poderosa Espanha de David de Gea ou Bojan Krkic, e a Argentina de Toto Salvio, ao ponto de ter arrancado um nulo à selecção albiceleste na ronda inaugural. Um triunfo sobre as Honduras na derradeira jornada da fase de grupos foi suficiente para selar o apuramento para os oitavos-de-final, no qual a Síria se revelou incapaz de travar o ímpeto inicial da Inglaterra de Danny Welbeck que acabou por se superiorizar por 3-1. Agora, o sorteio colocou a Síria no grupo F, juntamente com a campeã da Europa França, a campeã da Oceânia Nova Zelândia, e o Paraguai, quarto classificado no último Sudamericano.

O capitão de equipa Mohammed Jaddou é o maior talento emergente do país e a sua ausência por suspensão, no encontro das meias-finais com a Coreia do Sul, só por si, ajuda a explicar um resultado final tão desnivelado. Mas as razões que me levam a referir o seu nome, vão bem para além daquilo que ele pode oferecer em campo. É que Jaddou está entre os mais de 4 milhões de refugiados sírios que se encontram espalhados pelo mundo. Escolheu a Alemanha como destino, onde vive actualmente com o seu pai e o seu tio na região montanhosa de Oberstaufen, próximo da fronteira com a Suíça e a Áustria. Para trás, ficou o seu país de origem, mas também a sua mãe e os seus dois irmãos. Porém, a esperança de os reencontrar permanece. Não poderá participar no Mundial de Sub-17, até porque isso o obrigaria a cumprir serviço militar na Síria e tudo o que ele menos deseja nesta altura, é estar envolvido numa guerra. Treina no FV Ravensburg, do quinto escalão do futebol alemão, mas já cumpriu testes de captação no Bayer Leverkusen. O seu talento e a sua qualidade técnica convenceram os responsáveis dos farmacêuticos, no entanto, a sua condição de refugiado negou-lhe essa oportunidade. Por enquanto, terá de aguardar pela permissão do governo alemão. Cristiano Ronaldo é o seu maior ídolo, e o futebol, a sua única saída para ser bem-sucedido.

Um nome a reter: Omar Al-Soma

A forma como o futebol sírio tem resistido a uma guerra civil é verdadeiramente especial e inspiradora, só ao alcance da selecção iraquiana, que em 2007, conquistou a Taça das Nações Asiáticas. A derrota com o Japão não parece ter abalado a confiança do grupo, mas questiono-me até onde poderia chegar esta selecção senão estivesse privada das suas três maiores figuras: Firas Al-Khatib, Jehad Al‑Hussain e Omar Al-Soma.

Com 32 e 33 anos, respectivamente, Al-Khatib e Al-Hussain nasceram na cidade de Homs, reconhecida como “a cidade da revolução” e aquela onde os efeitos da guerra mais se fizeram sentir. Ambos se estrearam no futebol profissional com a camisola do Al-Karamah, o emblema mais representativo da cidade e do país. Pelo menos, era assim antes do conflito ter surgido, porque nos últimos cinco anos, não mais o clube saboreou o título nacional, depois de um tetracampeonato conquistado entre 2006 e 2009 e de uma presença na final da Liga dos Campeões Asiáticos em 2006, na melhor prestação obtida por um clube sírio na mais importante competição de clubes da Confederação Asiática de Futebol. Revoltados com as acções do governo, nomeadamente, na sua terra natal, estes dois futebolistas, provavelmente, os melhores que a Síria deu a conhecer, renunciaram à selecção nacional em 2011, após a participação na Taça das Nações Asiáticas. Por esta altura, já ambos actuavam no estrangeiro, o que por exemplo, não acontecia com Al-Soma, muito mais jovem.

Quando abandonou os palcos internacionais, Al-Khatib, de 27 anos, era o capitão da equipa nacional, a sua estrela maior, e até ao passado dia 11 de Junho, o melhor marcador na sua história com 31 golos. Estreou-se pela selecção principal com apenas 17 anos e não tardou a marcar o seu primeiro golo internacional. Com 18 anos, prestou provas nos belgas do Gent e do Anderlecht, mas acabaria por regressar ao seu país natal. Em 2012, já com 29 anos, cumpriu um período experimental no Nottingham Forest, mas a federação inglesa não lhe concedeu uma licença de trabalho. Fez carreira como avançado no Al-Arabi e no Al-Qadsia do Kuwait, arrecadando diversos troféus e prémios individuais. Nos últimos anos, somou também experiências pelo futebol do Qatar, do Iraque e da China, antes de regressar de novo ao Al-Arabi, onde a sua veia goleadora não parece estancar.

Já Al-Hussain construiu grande parte da sua carreira no Al-Karamah, participando no período de maior glória do clube, já retratado em cima, antes de rumar ao Kuwait, onde representou o Kuwait SC e o Al-Qadsia, onde foi companheiro de equipa de Al-Khatib. O seu palmarés é igualmente vasto, mas ao contrário do seu compatriota, estamos na presença de um médio ofensivo. Também representou clubes dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita, onde está actualmente, ao serviço do Al-Taawon. Foi o melhor assistente da última Primeira Liga Árabe, com 9 passes para golo, decisivos para afastar o seu clube da zona de despromoção.

Por fim, Al-Soma, o ponta-de-lança da moda no futebol asiático. Esteve, por exemplo, na final do Campeonato da Federação de Futebol da Ásia Ocidental, conquistado pela Síria, em 2012. Não era o jogador que é hoje, mas desde cedo mostrou capacidade e talento para um dia vingar no futebol europeu. Tal como Al-Khatib, também cumpriu um período experimental no Nottingham Forest, em 2012, convenceu os responsáveis do clube inglês, mas a sua sorte não foi diferente da do seu compatriota.

Deu os primeiros passos no Al-Futowa, com o qual se sagrou campeão de juniores (foi o melhor marcador com 29 golos), e no ano seguinte, ao serviço da equipa principal, foi o terceiro melhor marcador da Primeira Liga. Na época seguinte, foi instrumental no regresso do despromovido Al-Futowa ao primeiro escalão e foi já depois de o campeonato se manter interrompido por alguns meses, que rumou ao Al-Qadsia do Kuwait. Em três temporadas, conquistou 2 campeonatos, duas Taças do Príncipe, duas Taças do Emir, duas Supertaças e despediu-se em 2014, com o troféu de melhor marcador da Primeira Liga e com uma média de golos invejável: 43 em 68 jogos.

Actualmente representa o Al-Ahli da Arábia Saudita e dificilmente a sua adaptação poderia ter corrido melhor. Na última temporada, foi eleito o Jogador do Ano no clube e sagrou-se o melhor marcador da Primeira Liga. No entanto, os seus 22 golos foram insuficientes para chegarem ao título, apesar do Al-Ahli ter terminado a temporada invicto (os 9 empates no conjunto das 26 jornadas acabaram por fazer a diferença) – teve de se contentar com a Taça do Príncipe. Na Liga dos Campeões, e quando se aproxima a segunda mão das meias-finais, o Al-Ahli acabou afastado pelos iranianos do Naft Theran nos oitavos-de-final, de nada valendo os dois golos de Al-Soma no segundo jogo. Ao todo, apontou 5 golos na competição e está na quarta posição entre os melhores marcadores.

Embora não seja particularmente rápido, Al-Soma é extramente poderoso fisicamente (1,92m e 89kg), o que geralmente faz moça nas defesas adversárias. Finaliza bem com ambos os pés, impõe-se com grande facilidade no jogo aéreo e destaca-se da maioria por ser um especialista na cobrança de bolas paradas, nomeadamente, livres directos. Possivelmente, um jogador com capacidade para entrar no futebol europeu por via de um campeonato de segunda linha como o belga ou o suíço, antes de dar o salto para um de maior expressão, como o holandês ou o francês.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Lains

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