Et tu Brutus?

O Benfica está sob fogo cerrado. Não bastava o desgaste provocado pela guerra com o rival Sporting e as sequelas da novela Jesus, os resultados desportivos do futebol têm deixado algo a desejar. Os ânimos exaltaram-se nas hostes encarnadas, e as críticas amontoam-se, do adeptos mais anónimo ao mais notável. Não será o suficiente para abanar a estrutura, mas algumas rachas anteriormente escondidas por movimentos de contra-informação da dita estrutura começam a notar-se. Uma delas prende-se com a política desportiva seguida nos últimos anos, que permitiu a entrada de jogadores por valores assinaláveis que nunca foram ou são opção. Essa política foi amenizada pelas conquistas desportivas, e pelas vendas volumosas de elementos que foram potenciados pela estrutura, dizem uns, ou afinal, apenas e só pelo ex-treinador Jorge Jesus, defenderão outros. Claro que a recente derrota com o Sporting foi determinante, pois um resultado negativo perante o eterno rival, ainda mais sendo o segundo num curto espaço de tempo, é uma ferida difícil de estancar. E ferida aberta é sinal de ataque dos detractores de quem está no poder. Esta semana não foi excepção, e eles saltaram de todos os quadrantes, atacando a estrutura, atacando Vieira, atacando recentes decisões, atacando inclusivamente uma máquina de comunicação que dizem eles, serve para fazer propaganda e dissimular os fracassos. Mas esta situação toma outros contornos quando uma das críticas mais agressivas vem de dentro do próprio clube, de alguém próximo à Direcção... mas ao que se diz, com latentes interesses em subir na hierarquia. Ainda assim, poucos esperariam um ataque daquele tipo, vindo daquele quadrante.

O facto é que as eleições do Benfica não estão assim tão distantes quanto isso, e um ano em branco de Luís Filipe Vieira pode perfeitamente ser o seu óbito enquanto dirigente máximo do Benfica. Esta Direcção apostou em mostrar que o sucesso depende da estrutura montada e não de um único elemento, o treinador, mas para tal terá de ganhar títulos este ano. Vieira conquistou quatro campeonatos nacionais durante o seu mandato, e três deles foram com Jesus ao comando da equipa. Ou seja, o sucesso de Vieira pode não depender de Jesus, mas está intimamente ligado ao agora treinador do Sporting. Não vencer a Liga daria razão àqueles que defendem que o mérito não está na estrutura, mas na qualidade do treinador, ou pelo menos na junção da primeira com um treinador de qualidade. Qualidade essa que poucos vêem (ainda?) em Rui Vitória. Por outro lado, Vieira tem-se mostrado pouco activo na defesa do emblema da Luz nas recentes guerras, mostrando-se reservado e menos agressivo que Bruno de Carvalho.

A verdade é que há muito que a postura de Vieira tem sido pautada pela discrição, reservando-se a palcos amigos como as Casas do clube, e não entrando directamente nas trocas de galhardetes. O presidente que irrompia estúdio de televisão adentro ou insultava adversários desapareceu, e algumas pessoas encaram essa mudança de comportamento como um sinal de fraqueza ou apatia. Ou aburguesamento, se preferirem. Esta passividade pode abrir a porta a quem lhe queira usurpar o poder, sejam eles aventureiros ou candidatos credíveis. É certo que Vieira tem as suas linhas de defesa bem montadas, nomeadamente com a colocação de pessoas de carácter institucionalista em programas de debate que promovem a formação de opinião. Esses elementos, juntamente com o gabinete de comunicação vão chocar com os ataques que os diversos candidatos façam, ora através da imprensa, ora usando o seu tempo de antena enquanto "comentadores desinteressados".

O Benfica é sempre apetecível, pelo dinheiro que move, pelos interesses que o rodeiam, pelo prestígio, mas Luís Filipe Vieira tem conseguido manter-se no trono sem grandes dificuldades. A recuperação económica, o trabalho feito nas modalidades, as infra-estruturas, a Academia do Seixal, serviram de rampa de lançamento, mas como é sabido, um dirigente de um clube grande só se mantém no poder caso o futebol ganhe com frequência, e no Benfica, quem ganhou com frequência foi Jorge Jesus. Esse já lá não está, e pouco interessa saber como ou porquê. Interessa saber se essas vitórias continuam a surgir, pois caso isso não aconteça, Vieira terá de fazer uma campanha eleitoral notável para não ser apeado. É certo que Vieira já foi um homem só, ironicamente a renovação de JJ sendo uma dessas situações, e tem saído ileso. Mas os inimigos começam a apertar o cerco e a afiar as facas. Convém que as eleições não sejam marcadas para os idos de Março de 2016.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

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