As vicissitudes do ‘ex-marido da outra’

Esqueçam-se as consonâncias. Distantes vão os tempos em que as relações andavam de mão dada com os números (colocando de lado as comunhões de bens). Não por culpa da matemática que, passe a antítese, se mantém exata e infinita, foram antes os encadeamentos – à imagem da maioria dos produtos de hipermercado – a adquirir prazo de validade. Dados recentes dizem que, por dia, há 72 divórcios em Portugal. Litigiosos talvez rondem os 80%. Bettencourt, adepto do obsoleto, tentou – falhando redondamente - travar uma embarcação que está próxima de chegar a bom (?) porto. Paulo Bento embateu no iceberg, devolveu o anel quilatado e refugiou-se - após um interregno mediano - nos braços do novo bem-querer. Depois disso, já o bem-querer arranjou outro respetivo – perceber até quando é meramente especulativo - e já Bento se dedicou a outras andanças. Em ambos os imbróglios, a minoria percentual predominou.

Paradoxalmente, e como a probabilidade contenciosa se assemelha à posse de bola do Barcelona (especialmente, de Guardiola) surge o conflito mais sinuoso dos últimos anos (décadas?): Bruno de Carvalho cobiçou o alheio que, segundo consta, já não era desejado veemente na casa do antigo amor platónico. Vieira endereçou um convite ao ex-cúmplice, solicitando-lhe que fosse consigo “ver os aviões”, ao que Jesus torceu o nariz. Não se sabe ao certo se foi sentimento de carência, vingança ou desejo antigo. O que é certo, sim, é que o amadorense quis sentir na pele o que é ser “o marido da outra”. O romantismo desmedido, quiçá, de cariz temporário, fez BdC endeusar JJ – negligenciando os atributos de um rosto mais jovem, menos experimentado, menos calejado, talvez menos capaz de garantir rejubilação imediata – recitando-lhe versos ‘perfecionistas de arquétipos’, colocando os ‘pináculos da criação’ na mesma linha.

A estada em Alvalade não tem sido um pedestal puro, embora a recente vitória no dérbi possa fazer esquecer muita coisa e embandeirar em arco. Cinco notas:
1. Piromania no ataque leonino? – O timoneiro de 61 anos não tem, neste momento, armas incendiárias para pontificar no clube verde e branco aquilo que dogmatizou na Luz. O curioso é que JJ não só não se está a dar mal com uma situação que, dificilmente era crível no início da época, como está a retirar proveitos da situação. João Mário e Ruiz não são jogadores de ludibriar defesas com dribles desconcertantes, mas são elementos capazes de garantir posse de bola, com constantes movimentos interiores, provocando, inúmeras vezes, o rompimento dos laterais (como cruza bem Jefferson) ou até mesmo de Slimani, que não só tem aprimorado um jogo de cabeça que já não se via no clube, provavelmente, desde Jardel, como revelado uma faceta que muito poucos conjeturavam: cair nas linhas, contemporizar, avançar com bola, entregá-la redonda…
2. Atopia à formação: estará a desvanecer? – Continua a ser o ‘calcanhar de Aquiles’ do técnico, pelo menos, por enquanto. O Sporting apresenta muitos elementos da formação na equipa titular, ponto assente. No entanto, já todos eles eram, no ano passado, jogadores de créditos firmados, não precisando do tão badalado “período de adaptação”. Saltam à vista os nomes de Gelson e Matheus, que ainda estão umbilicalmente conectados à fase descrita. A dúvida subsiste: está o treinador carenciado de opções que o levam a apostar na prata da casa, num plano alternativo? Jesus é mestre a potenciar jogadores, resta perceber se vai revelar-se mestre na transição dos mesmos para a equipa principal e consequente valorização.
3. Burro velho aprende línguas. Mais uma vez ficou patente a capacidade adquirida pelo veterano. Outrora incapaz de entregar o jogo aos adversários JJ é, hoje, magistral na abordagem aos clássicos. Quando necessário, entrega a bola ao contendor, esperando um lapso para lançar o veneno mortal. Pragmatismo aliado a qualidade de jogo, que tem trazido repercussões tremendas.
4. A presunção do discurso. Ponto que não muda, nem vai mudar. Talhado para crispações, dicionário ‘sui generis’, não deixa passar incólumes os méritos por si alcançados. Quem parece atingido pelos ‘mind-games’ é Rui Vitória, que não se encontra preparado para este duelo de gladiadores.
5. Resiliência dos jogadores. Inefável a forma como leva a equipa consigo, que se apresenta num estado anímico poderoso. Jogadores dão sinais de emancipação e de prazer, remando todos no mesmo sentido. Quebrar recordes começa a ser uma constante..

Quebrar o longo jejum do campeonato? Só o tempo o dirá.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Renato Santarem

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