Uma Europa diferente

A qualificação para o França 2016 mudou o panorama futebolístico na Europa ao nível de selecções. E o curioso é que isto nem se deve na totalidade às ideias de Platini (do alargamento), já que países como a Islândia e Áustria até dominaram os seus grupos e o País de Gales e a Irlanda do Norte seguem em primeiro.

Quando em 2008 a UEFA decidiu aumentar em 8 o número de selecções que participam no Euro 2016, muitas nações esfregaram as mãos de alegria. Turquia, Sérvia, Roménia, Bósnia-Herzegovina, Noruega, Dinamarca, Rep. Checa, Rep. Irlanda e Polónia, habituadas a participar nas grandes competições “ora sim, ora não” tinham uma excelente oportunidade para garantir uma qualificação tranquila, atrás dos grandes tubarões (Portugal, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Itália, Croácia, entre outros). Contudo, o aumentar de vagas fez também abrir caminho a novas nações, pouco habituadas a estes voos, que viram a oportunidade ideal para brilhar. 

O principal destaque vai claramente para a Islândia. Os islandeses, bastante longe da Europa Continental, andaram a preparar o terreno, com um excelente trabalho desenvolvido nas camadas jovens - destaque para os sub-21, com uma participação recente no europeu 2011 e uma eliminação no playoff. Contudo, num país com apenas 300 mil habitantes (6º menos populoso da Europa) e com o andebol na primeira linha do desporto, os resultados apresentados pelo conjunto de Lagerback superam, em muito, as expectativas. Apesar da qualidade ofensiva da equipa, a experiente e organizada defesa é que tem estado em destaque, com apenas 3 golos sofridos em 8 jogos (a Rep. Checa foi a única equipa a marcar aos islandeses). Halldórsson (NEC, Hol), Sævarsson (Hammarby, Sue), Sigurðsson (Krasnodar, Rus), Árnason (Malmo, Sue) e Skúlason (OB, Din) têm formado a base defensiva, enquanto Gunnarsson (Cardiff City), o talentoso Bjarnason (Basileia), o craque Sigurdsson (Swansea) e Gudmundsson (Charlton) completam o meio campo. Na frente de ataque, o predador Sigtorsson (Nantes – 17 golos em 31 jogos pela selecção) faz parelha, à vez, com Böðvarsson (Viking, Nor), o conhecido Finnbogasson (Olympiacos) e o veterano Gudjohnsen.

No grupo G só deu Áustria. Finalmente e após longos anos sem conseguir ultrapassar a fase de qualificação (os austríacos participaram no Euro 2008, mas como organizadores), os comandados de Marcel Koller brilharam ao mais alto nível. Num grupo com Rússia, Suécia e Montenegro, Alaba e companhia apenas cederam um empate (1-1 na recepção à Suécia), derrotaram a Rússia por duas vezes e humilharam a Suécia na Escandinávia (4-1). Com um plantel baseado na Bundesliga (Alaba, Klein, Junuzovic, Harnik e Baumgartlinger, entre outros)  e com os “ingleses” Arnautovic, Prodl e Fuchs, os austríacos apresentaram-se em grande forma e prometem complicar a vida aos favoritos em França.

No grupo B, o País de Gales falhou no domingo o apuramento, algo que não deverá deixar fugir em Outubro (ainda recebe a frágil Andorra). Tal como a selecção islandesa, os galeses têm baseado o seu jogo numa excelente organização defensiva (2 golos sofridos, contra Chipre e Andorra) e na classe de Bale. O extremo do Real Madrid marcou 6 dos 9 golos do País de Gales, que procura a 1ª participação num Europeu e a 2ª numa grande fase final, depois do Mundial 1958. Apesar de não contar com grandes nomes, com a excepção de Bale e Ramsey, a experiência da Premier League e do Championship têm trazido bons resultados aos galeses. Jogando num 3-5-2 que facilmente se transforma num 5-3-2 (ou vice-versa), o País de Gales tem apresentado uma muralha difícil de quebrar. Hennessey (suplente no Palace) é o habitual guarda-redes, enquanto Ashley Williams (Swansea) é o líder da defesa (Ben Davies – Tottenham e Collins – West Ham têm feito parelha com o capitão). Nas laterais, Jazz Richards (Fulham) e Neil Taylor (Swansea) têm dado profundidade, enquanto King (Leicester) e Edwards (Wolverhampton) ajudam Ramsey (Arsenal) nas tarefas do meio campo, isto nas ausências de Ledley (Palace) e Allen (Liverpool). No ataque, tudo gira à volta de Gareth Bale (Real Madrid), que tem quase sempre como companhia Robson-Kanu (Reading). 

O grupo F prometia muito, pelo simples facto de não ter um claro favorito. A Grécia, na ressaca pós Fernando Santos está uma sombra de si própria e compete com Gibraltar para o número de golos marcados (2), tendo perdido duas vezes frente às Ilhas Faroé. Quem aproveitou, neste momento, foi a Roménia e, principalmente, a Irlanda do Norte. A pequena nação situada a norte da Irlanda tem feito uma campanha espectacular, mesmo contando com um elenco bastante fraco e envelhecido. Kyle Lafferty tem brilhado, com 7 dos 12 golos, tal como o veterano Gareth McAuley (WBA) – 3 golos. No 11 habitual de Michael O´Neill, para além dos dois citados, contam-se também Jonny Evans (ex-United), Chris Baird (Derby), Steven Davis (Southampton), o médio adaptado a defesa esquerdo, Chris Brunt (WBA) e um jogador do III escalão inglês (Conor McLaughlin). Os norte-irlandeses já participaram em 3 Mundiais (1958, 1982 e 1986), mas nunca participaram num Europeu.

Eslováquia, Ucrânia, Hungria, Albânia, Noruega, Eslovénia ou Israel são outras das selecções que podem marcar presença no França 2016, dando outro colorido à prova. Quais são as principais surpresas da fase de apuramento e as principais desilusões? O aumentar para 24 nações poderá trazer mais brilho ao Europeu?

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