Um clube que perdeu tudo

Finalmente chegou Domingo. O céu brilha, as águas que vagueiam pelas ruas da cidade refletem esse azul imaculado. O relógio toca as 15:00. Está na hora de ir à bola. Famílias inteiras seguem juntas apetrechadas com um farnel para degustarem um bom lanche antes da bola rolar.

"Sentamo-nos na sombrinha do parque da cidade antes de irmos ver o Beira a ganhar" disse o pai, animado por ver os filhotes a seguirem as pisadas do seu progenitor no que à paixão pelo clube diz respeito. "Está na hora de irmos embora, meninos! Quero ver o início do jogo e com a multidão que está vamos apanhar fila!". 

A família apressa-se para entrar no estádio. O segurança faz a revista. Tudo limpo. Está na altura de se sentarem no banco do costume religiosamente guardado pelos companheiros da bola como se de um favor voluntário se tratasse. Já se ouvem os cânticos da claque.

Cinco minutos de jogo. O estádio levanta-se numa explosão de alegria. "Golo, golinho, golão, a bola entrou, o Beira-Mar marcou," gritava o speaker eufórico. "Só podia ser o grande Cilío Souza" dizia um fervoroso adepto encostado à cerca que separava a bancada do relvado. Chega o intervalo. Está na hora de ir à Dona Esperança buscar tremoços. Todos queriam comer tremoços. O sabor dos mesmos tornou-se familar para muitos e muitos adeptos. Ninguém passa sem eles para comoção da célebre vendedora.

Segundo tempo sem incidências. O Beira-Mar ganhou o jogo. "Estamos de vento em popa. A manutenção está no papo".  Segue-se um misto de sentimentos. Por um lado, a rapaziada ganhou, por outro, o jogo terminou. Duas semanas custam muito a passar.

Anos passaram. A Dona Odete olha para o céu. O cinzento carregado e tristonho não deixa a famosa adepta descansada." É melhor levar um guarda-chuva".

Segue-se uma longa e penosa viagem que a vai levar ao monumento da cidade que se pode observar a partir de uma das muitas auto-estradas que ligam Lisboa ao Porto.

Não há lanche para a Done Odete nem para os netos. A chuva começou a cair. O imenso parque de estacionamento vazio entristecia o local. Entra-se no estádio sem qualquer demora. "Hoje ninguém apareceu para a revista. Pudera, já são 5 presidente em 4 anos. Isto bateu mesmo no fundo. Foram espanhóis, ingleses, iranianos e agora este maluco brasileiro. Nenhum cumpriu nada do que prometeu. Assim não dá," dizia o segurança aborrecido por não ter nada que fazer.

Um grupo de idosos junta-se no túnel. Qual será o motivo daquele burburinho? pergunta Dona Odete para si própria. Rapidamente encontra uma resposta. Os jogadores não vão jogar os primeiros 5 minutos de jogo em protesto pelos 5 meses de salários em atraso. Mas lá começou a bola a rolar. 

Os gritos dos protagonistas no relvado soam como um silêncio ensurdecedor. Final da partida. Derrota consumada. Dona Odete olha para os camarotes. Representantes do Sindicato dos Jogadores olham para as bancadas com o semblante carregado. O presidente da SAD esconde-se ao ouvir os protestos dos adeptos contra o momento do clube. Dias depois, sai a noticia que preparava o seu regresso ao Brasil sob pena de ser investigado pelas autoridades.

"Está na altura de voltar para casa, avó. Não gosto disto. Estamos sempre a perder. Prefiro ver o Benfica!" dizia o pequeno Luís, neto de Odete.

A intensa chuva acompanha a idosa no seu regresso a casa. Tudo terminou. A porta de casa fecha-se. Com estrondo. Não podia ser de outro modo.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Dias

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