Tempero Norte-Americano

Estados Unidos da América, “Terra dos Povos Livres, Casa dos Corajosos” e agora… do Soccer! Vinte e um anos volveram desde a realização do Campeonato do Mundo em solo norte-americano e, desde então, o futebol naquela região saltou do anonimato para as luzes da ribalta, e não é para menos! O cardápio da 20.ª edição da Major League Soccer (MLS) é de comer e chorar por mais. Entre as mais ricas iguarias que nos são dadas a degustar recomendam-se a inteligência de Frank Lampard, a magia de Kaká, a classe de Andrea Pirlo, o talento de Giovinco, a liderança de Steven Gerrard, a potência de Didier Drogba, o faro de David Villa e, até mesmo, as acrobacias de Giovani dos Santos.

Noutros tempos, diríamos, certamente, que esta carta gastronómica seria tipicamente europeia, sim… noutros tempos, pois, recentemente, a cozinha norte-americana tem realizado investimentos avultados na tentativa de reduzir o fosso qualitativo que a separa da conceituada cozinha europeia. Mas o que faz a cozinha europeia tão deliciosa, tão irresistível, tão viciante? Será que o segredo da gastronomia europeia está nos ingredientes? Diria antes que o segredo está no tempero!

Em culinária, não basta a um chef ter à sua disposição os melhores ingredientes do mercado para confecionar um “manjar” dos deuses. Os ingredientes devem ser, impreterivelmente, condimentados para que o seu paladar seja apurado. Do mesmo modo, não basta reunir num relvado vinte e dois dos melhores atletas do mundo para que os 90 minutos de jogo sejam apaixonantes, pois, uma partida de futebol será tão especial e tão vibrante quanto a atmosfera que o envolve. Assim, se na culinária o segredo está no tempero, no futebol está no público e, por enquanto, o soccer é, um tanto ou nada, insosso.

O comum adepto norte-americano que se desloca ao estádio para assistir a uma partida de soccer poderia ser descrito como a antítese do hooliganismo, todo ele racional e pouco, ou nada, emocional. É certo que à entrada do estádio se ouvem os típicos “Yeah’s” e “Go team!”, e que nas bancadas não faltam os tambores e as buzinas, no entanto, todo este aparato parece, aos olhos do adepto europeu, teatral, muito à imagem do cheerleading a que a cultura pop norte-americana nos foi habituando com as suas comédias românticas que retraram o High School. Pensar-se-ia, à partida, que o soccer herdaria uma costela latina – fruto da proximidade geográfica do México e do número de latinos residentes no país – capaz de conferir um paladar mais spicy ao tempero norte-americano, contudo, tal não se verificou e imagens de semblantes carregados, de punhos cerrados ou de veias salientes, são uma raridade no Soccer. É óbvio que o adepto norte-americano não fica eufórico com as derrotas da equipa que apoia, no entanto, é notória a ausência daquela paixão de natureza umbilical que o adepto europeu e sul-americano nutrem pela sua equipa.

Apesar de já rivalizar, em popularidade, com as modalidades queridas dos E.U.A. (Futebol Americano, Basebol, Basquetebol e Hóquei no Gelo), a verdade é que, para o adepto americano, o soccer não passa de um desporto, uma forma de entretenimento, um evento que serve de ocasião para que as pessoas se reúnam e convivam enquanto apreciam um espetáculo, revelando-se, por enquanto, incapaz de despertar emoções tão genuínas, autências e, até, irracionais quanto as modalidades supramencionadas.

Numa altura em que alguns adeptos europeus começam a temer o poderio económico da MLS e a capacidade de sedução do American Dream, é pertinente relembrar que, antes de conquistar os atletas, o soccer tem de conquistar o coração (e o estômago) dos norte-americanos e nesta batalha, a MLS não compete com as ligas europeias, mas antes com o tempo, pois, prevalece a ideia de que uma ou duas gerações terão de passar até que o Soccer faça parte do ADN e da gastronomia da nação norte-americana. Até lá, deixemo-nos deliciar com o mehor que a cozinha europeia tem para oferecer!

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Pedro Pateira

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