Os pés de Balotelli

“Nasci preguiçoso e isto era a mais fácil das brincadeiras”. A frase transcrita não foi proferida por nenhum desportista famoso, nem por um adepto fervoroso, ao invés, pertence ao lendário ator Humphrey Bogart, imortalizado no cinema pelo seu papel em “Casablanca”, referindo-se à arte de representar. Porém, a citação é transversal a todas as áreas, a todas as profissões, a todas as artes do mundo, incluindo o planeta do futebol. Nele, nem todos nascem com semelhantes privilégios, alguns são bafejados pela sorte logo desde o princípio, enquanto outros têm de lutar por ela mas, nos dias que correm, um dado é certo: se queres ter sucesso ao mais alto nível, conta tanto o esforço como o engenho.

28 de junho de 2012, Estádio Narodowy, Varsóvia. Joga-se a segunda meia-final do Euro 2012, depois de no dia anterior a Espanha eliminar Portugal, garantindo o primeiro passaporte para a final. Frente a frente uma Alemanha pujante, renascida, vice-campeã europeia e uma Itália em clara queda de rendimento, cuja presença nas “meias” já era vista como vitória. 20 minutos de jogo, bom cruzamento de Cassano e Mario Balotelli cabeceia para o primeiro golo da noite. 16 minutos depois, o mesmo jovem problemático de 21 anos fecha o jogo com um tiro soberbo. Os transalpinos garantiam a final, enquanto “Super Mario” demonstrava, de uma vez por todas, ser um caso sério, os problemas e maus comportamentos haviam sido deixados para trás. Os dados estavam lançados, de então em diante, o ponta-de-lança italiano conquistaria o mundo com a sua potência, capacidade de remate e vontade férrea. Contudo…

25 de agosto de 2015, Milão. O outrora “Golden Boy”, Mario Balotelli, é oficializado como reforço do AC Milan, por empréstimo do Liverpool. Durante a estadia em Inglaterra, em todas as competições, apontou somente 4 golos, pouco se esforçou, nada convenceu e desiludiu. Afinal, o rapaz de 21 anos que decidira as meias-finais do Europeu era apenas isso: uma desilusão, alguém com inauditas habilidades futebolísticas mas que, derivado à falta de profissionalismo, nunca singrará verdadeiramente no futebol.

Hoje em dia, talvez como nunca antes neste desporto, “ter cabeça” é tão importante como “ter bons pés”. Um gesto ou atitude irrefletida, falta de empenho num treino, desrespeito para com treinador ou colegas bastam para arruinar uma carreira potencialmente extraordinária. Multiplicando-se os casos de insubordinação e de atos problemáticos, seguindo a lógica, seria natural que “Super Mario” já tivesse perdido qualquer crédito. Porém, continua a ser aposta em bons clubes europeus, a agradar a adeptos e a treinadores, ansiosos de verem os pés de Balotelli fazerem a diferença. Talento, tem-no sempre; profissionalismo, raramente; oportunidades, cada vez menos. Esta tem de ser a época do tudo ou nada, de humildade, empenho, vontade, ou da sobranceria, desrespeito e preguiça? Mario tem a palavra, é o momento de a saber usar.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess

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