O choro de Lopetegui, o drama de Mourinho e o lamento de Cavaco

Foi uma semana interessante em termos de assuntos sem interesse algum. Situações que mereceram algum destaque, mas pouco, e que aqui são recuperadas.

Comecemos por Lopetegui, que na abordagem ao jogo de Arouca se queixou de tratamento desigual devido ao facto dos arouquenses terem recebido o rival Benfica em Aveiro. Desportivamente nem houve razões de queixa, pois os portistas venceram, ao contrário do que acontecera com Benfica, mas ficou esta nota que, como tantas outras, põe em causa a tal verdade desportiva, e a equidade. Argumentos variados para todos os gostos, o facto comprovado é que existiu um tratamento desigual, e realmente o treinador do Porto tem razão em queixar-se. Esta questão não é nova, e era usual no advento das transmissões televisivas. Clubes que não tinham iluminação nos seu estádios mudavam-se para campos onde fosse possível jogar à noite, com transmissão em directo. Em alguns casos, para a equipa visitante (normalmente um grande), era um maná, pois alguns campos eram autênticos pardieiros, ao nível de relvado e de dimensões, isto para lá dos ambientes apertados. Voltando ao presente, o motivo de força maior é nem mais nem menos que o financeiro, pois uma casa cheia em Aveiro quase que vale por uma temporada, mas isto das competições desportivas muitas vezes choca com as competições profissionais: as primeiras têm um conjunto de regras que devem ser cumpridas, enquanto que as segundas se regem pela sobrevivência financeira. De qualquer modo, a pergunta não deveria ser o porquê do Benfica encher o campo, mas sim o porquê do campo não estar sempre cheio. Se houvesse um bocadinho mais de confiança na seriedade das competições, todos os dias seriam dias de casa cheia.

Já Mourinho, sacudiu a pressão relembrando a situação dos refugiados em busca do espaço europeu. Não é a primeira vez que o Especial mistura assuntos mundanos com futebol, tentando desvalorizar determinados acontecimentos que lhe são desfavoráveis. Sim, Mourinho tem toda a razão, de facto, um pai não conseguir pôr comida na barriga do filho está sob maior pressão que um jogador que tenha de bater um penalty ao minuto 90 de uma final de um Mundial. E futebol é apenas futebol, mas ele não pode jamais defender a filosofia de que um jogo é apenas um grupo de 22 rapazes que se juntou para hora e meia de diversão. Há muito dinheiro, muitos interesses, muito esforço, muitos adeptos a vibrar, há sim, muita pressão, pois se assim não fosse, qualquer um seria treinador do Chelsea. Mourinho não pode desviar as atenções, usando assunto externos ao futebol, ainda mais desta gravidade. Acaba por ser uma falta de respeito para com os adeptos, que afinal o sustentam, e para os próprios refugiados, cujo drama já é explorado o suficiente por outros interesses.

E por fim, o Presidente Aníbal C. Silva mostrou descontentamento pelo facto inédito de haver jornada futebolística em dia de eleições. Não se sabe se a preocupação recai sobre o aumento da abstenção (entre jogadores e adeptos, meio país deve estar entretido), ou se é devida à possibilidade de se concretizar a teoria de que os portugueses ligam mais à bola do que à política. O problema nem serão os abstencionistas, até porque está provado que os políticos, todos eles, ligam zero à abstenção e ao desinteresse pelas eleições, mas sim a afirmação de que o Zé Povo prefere ir sentar o traseiro numa cadeira e ver 22 mecos a correr atrás de uma bola, do que ir cumprir o seu dever cívico, bem como a falta de respeito da Liga pelo sagrado processo eleitoral. Presidente, e porque tenho a certeza de que é leitor deste espaço, posso dizer-lhe com toda a certeza que não será por jogar o Benfica que a malta deixa de ir votar. Sério. A malta não vai votar porque simplesmente não lhe apetece, porque não vos dá importância, e porque há sempre coisas melhores para preencher o dia, como ir ao centro comercial ou passar umas horas na praia, se o tempo estiver para isso.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

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