Diferenças na formação dos Africanos

Ponto prévio: O que aqui vai ser escrito não advém da leitura de livros especializados ou jornais, mas antes da experiência e da observação.

Nunca reparou que, tendencialmente, os jogadores rápidos decidem pior que os lentos? Ou que o jogador Africano que é formado em Portugal raramente tem sucesso, contrariamente ao que acontece em países como a Bélgica ou a França? Os exemplos são imensos e para os mais atentos constitui um case study. Não será certamente problema dos "barcos" que chegam a Portugal ou da falsa questão da idade cronológica dos atletas.

Imagine o Djaló nos escalões de formação. Pense naquela velocidade e potência física a enfrentar adversários menos maturados e mais limitados em termos de velocidade. Era demasiado fácil para o jogador ultrapassar os adversários usando sempre a mesma arma: a velocidade. É quase inconsciente o caminho que o jogador segue, até porque é o caminho mais fácil para o sucesso. E, na verdade, é difícil fazer ver a um jogador que, mesmo tendo sucesso naquilo que faz, está a actuar de forma errada.
Por outro lado, imagine o João Moutinho numa fase mais precoce. Baixo centro de gravidade, dificuldades nos contactos e na mudança de velocidade. Como é que o jogador contorna isso? Pela intensidade na tomada de decisão, pela agilidade mental em compreender aquilo que o jogo pede. Acima de tudo, pela certeza de que o sucesso dele é mais provável se fizer a bola correr, ao invés de ser o próprio a fazê-lo.



E, na verdade, estes vícios ocorrem tanto em Portugal como noutro país qualquer. A diferença está na oposição que esses jogadores maturados - Africanos na maior parte da questão, muito embora aconteça também com Caucasianos - encontram. Nos países em questão - França ou Bélgica -, grande nata dos atletas são destas origens, pelo que os jogadores em questão dificilmente se destacarão com recurso às características físicas. Na realidade, os adversários são quase todos maturados em idades precoces, o que obriga os jovens a recorrer a outras armas para se fazerem valer no jogo. Pelo contrário, no nosso país, a tendência está para o jogador tipicamente Caucasiano - que tem inerente um pico físico mais tardio que o Africano - ser a franja dominante nos escalões de formação. Nesse sentido, quando surge alguém diferente, isto é, mais rápido e com maior valia física, a diferença será transcendente e este terá pouca oposição no seu jogo. O jogador cresce a ser superior, cresce sem estímulos competitivos adequados e cresce com esses vícios, que mais tarde tendem a ser atenuados pelo nivelar físico entre jogadores.
Contudo, o erro já foi feito. Quem passa 4,5,6 anos [em média desde os 11,12 aos 16,17, que é a idade onde as diferenças se reduzem] a acumular uma série de vícios, uma série de mecanismos no seu jogo, dificilmente os vai contrariar na fase final da formação, onde as capacidades técnicas e de decisão estão quase aprimoradas. E, se nada for feito, continuaremos a desperdiçar um potencial físico e atlético enorme por não ser dado um tratamento adequado a estes atletas.



A chave passa pelo treino, estímulos e nível competitivo (o ideal é competirem vários escalões acima) que temos de oferecer a atletas com essas características. Muito se discute qual a melhor forma de os integrar num meio onde aprendam a decidir, a ganhar argumentos técnicos que negligenciam em desprimor da velocidade e, acima de tudo, a não recorrerem insistentemente à mesma arma. A base passa por levar o jogador a não fazer força dessa característica. Como? Empurrá-lo para o centro do terreno - onde se ganha outra noção do jogo colectivo -, obrigá-lo a conduzir com a sola, limitar o número de toques (em situações esporádicas), colocá-lo em situações de inferioridade numérica, enfim, mostrar que o caminho individual e da velocidade não será a melhor arma a longo prazo.

A discussão está lançada.

VM Scouting: João Magalhães e Rui Valente

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