Dicionário futebolês século XXI (sem prefácio de Manuel Machado)

A evolução do futebol pode ser vista em diferentes elementos. Nos números que já não são de 1 a 11, nas botas coloridas, em jogos com 22 nacionalidades diferentes no relvado. Mas um especto interessante é o modo como o próprio léxico do futebol mudou.

As citações de Gabriel Alves (que nos deu pérolas como "e aqui está, um golo substantivo que nem pode ser adjetivado") e a ripa na rapaqueca de Perestrelo deram lugar aos Freitas-Lobismos, termos como "entre linhas" ou "transição" foram lentamente introduzidos no dicionário de futebolês, sendo hoje considerados indispensáveis para descrever qualquer partida de futebol. Não que antes a procura do espaço vazio não fosse uma realidade, ou que as equipas de hoje não joguem em contra-ataque, mas a verdade é que a língua evolui com o tempo, algumas expressões caem em desuso e outras emergem.

A questão é que muitas das palavras que se tornam populares, ao serem utilizadas em demasia, perdem o seu significado, acabando por tomar um significado abrangente, perdendo o seu sentido inicial. Seguem-se alguns vocábulos sem os quais o comentador de sofá não passa, mas que nem sempre são alvo de correcta utilização:

Potência
Jogador forte, rápido ou poderoso é hoje inevitavelmente denominado "potente". A certa altura, a expressão até acaba por parecer depreciativa, pois subentende-se que este tipo de jogadores pouco mais tem que perfil atlético. Mas o facto é que as características físicas de um jogador não se podem reduzir à tal "potência", tantos são os parâmetros a considerar. A velocidade é um factor relevante, mas nem todos os jogadores rápidos o são pela mesma bitola. Alguns jogadores são capazes de sprints longos, outros são rapidíssimos, mas apenas em distâncias curtas, e depois há o factor aceleração, cuja variação molda a visão que o espectador tem da velocidade de um jogador. A força, o poder de choque (muitor relacionado com o equilíbrio e coordenação motora), com e sem bola, a resistência (porque há aqueles carros potentes cujo motor gripa cedo) são algumas características físicas que definem um jogador, e que muitas vezes são ignoradas.

Técnica
Palavra várias vezes utilizada, de modo errado, para descrever habilidade. Técnica individual passa, antes de mais, por dominar os aspectos básicos do jogo, tais como passe, recepção e remate. Um jogador que faça 500 embaixadinhas no treino e aplique três ou quatro cabritos num jogo, mas que não receba uma bola no pé sem que esta fique coladinha, não pode ser apelidado de tecnicamente evoluído. Um exemplo era Edgar, antigo extremo do Benfica. Drible genial, raramente perdia no um contra um, porém, o destinatário primordial dos seus cruzamentos era o apanha-bolas atrás da baliza adversária. Esta é uma discussão antiga, e sem consenso, tendo como um dos seus pontos a dicotomia entre o jogador latino e o alemão. Os germânicos sempre foram considerados como pouco tecnicistas, e até toscos, embora quase todos mostrassem uma capacidade de executar gestos de passe e remate muito superiora à dos tecnicistas portugueses.

Decisão
O poder de decisão, tantas vezes confundido com capacidade de execução. Quando um jogador lê o jogo, vê as opções, e toma a decisão de colocar a bola no seu colega sozinho, mas atira um biqueiro pela linha lateral, não estamos perante uma má decisão, mas sim má execução dessa decisão. Falta de capacidade de decisão é não saber o que fazer com a bola (e não é exclusivo dos atacantes), ou então passar para um colega marcado, ou arriscar o drible quando se tem dois companheiros isolados. Essa tomada de decisão pode ser limitada pela incapacidade de jogar de cabeça levantada, ou por lentidão com bola no pé, mas é preciso sempre distinguir os erros que se cometem por falta de cabeça daqueles cometidos por falta de pés. Outro ponto a referir é que a decisão nem sempre acontece com bola no pé, pois qualquer movimentação sem bola é uma tomada de decisão que influencia o decorrer de uma partida.

Intensidade
Correr desalmadamente, morder os calcanhares do adversário, discutir cada jogada como se da última se tratasse? Esta é uma palavra e significado complicado? Alguns jogadores optam por fugir ao contacto físico, sendo por isso apelidados de pouco intensos. William Carvalho é um bom exemplo, pois muitas vezes no processo defensivo prefere gerir o espaço do que atacar o adversário. A verdade é que, dada a sua fraca capacidade de aceleração, ele torna-se presa fácil para quem lhe apareça embalado pela frente, preferindo por isso contemporizar (outra palavra futebolesa), mas para tal, tem de contar com... a intensidade(?) dos colegas, que terão de o acompanhar no processo de recuperação. A verdade é que os adeptos preferem o jogador que se mata em cada jogada, apelidando de preguiçosos os Cardozos que por cá passam, e não ligam àqueles que, através de constantes movimentações sem bola, possuem a capacidade de dar e tirar linhas de passe sem recorrer a grandes correrias, permitindo-lhes estar sempre em jogo.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

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