Consumir de preferência antes da 3.ª época

José Mourinho é, indubitavelmente, um dos temas prediletos e mais controversos da imprensa desportiva nacional e internacional. Figura indelével do futebol contemporâneo, o Special One desperta entre os aficionados do desporto Rei as emoções mais antagónicas, é uma daquelas figuras que se ama ou odeia. O seu mediatismo é tal que ninguém se coíbe de formular juízos de valor a respeito do técnico português, ninguém lhe fica indiferente, tanto, que há muito que o fenómeno “José Mourinho” se propagou para lá da arena desportiva, sendo o português estudado por eruditos do mundo académico, que fascinados pelo seu sucesso, e pela longevidade do mesmo, têm procurado decifrar o treinador e, sobretudo, o Homem que revolucionou a componente técnico-tática da modalidade e o próprio conceito de Treinador.

Importa, por isso mesmo, ressalvar que as linhas que se seguem não têm como propósito enveredar em qualquer polémica ou dilema kantiano. As linhas que se seguem não pretendem, sequer, engendrar uma teoria, muito menos asseverar um dogma universal, mas tão-somente tecer algumas considerações sobre a odisseia futebolística do treinador português mais titulado de sempre.

Nascido em Setúbal, José Mário dos Santos Mourinho Félix conquistou, ainda antes de celebrar o seu cinquentenário, aquilo que a grande maioria dos comuns mortais não consegue em toda uma vida, um lugar entre a elite mundial.

A cumprir a sua 15.ª época como técnico principal, a carreira de Mourinho tem primado pela homogeneidade cronológica. Apesar de ser saudosamente recordado pela larga maioria dos adeptos que serviu, é curioso observar que todos os mandatos que Mourinho cumpriu foram efémeros. Com efeito, Mou nunca cumpriu quatro épocas consecutivas à frente do mesmo clube (na sua primeira passagem pelo Chelsea, rescindiu contrato 6 jornadas após ter iniciado a sua 4.ª época à frente dos Blues), no entanto, esta particularidade desempenhou um papel capital na carreira do técnico português, pois “José Mourinho” é, hoje, epíteto do sucesso imediato. De resto, as equipas de Mourinho são, unanimemente, reconhecidas por realizarem uma primeira época de alto nível e por serem implacáveis na segunda. Subsiste, todavia, a sensação de que ainda está por aferir a competência de Mou em comandar os seus pupilos por um período de tempo extenso, sobretudo, quando estes são bens sucedidos num período inicia. Por exemplo, Pep Guardiola (independentemente dos astros que tinha ao seu dispor) foi capaz de manter o Barcelona no topo durante 4 épocas. Será José Mourinho capaz de tamanha proeza?

É certo que os dados à nossa disposição não nos permitem tirar ilações conclusivas, no entanto, quando dissecamos os projetos mais duradouros de José Mourinho, as coincidências com que nos deparamos são demasiado evidentes para que possamos simplesmente desviar o olhar. Aventuremo-nos, então, numa viagem no tempo, passando em revista alguns períodos marcantes da carreira do Special One.

Primeira paragem, época 2006/2007. Após a conquista de duas Premier League’s consecutivas, esperava-se que o Chelsea de José Mourinho não só cimentasse a sua hegemonia em Terras de Sua Majestade, como se assumisse, finalmente, como soberano europeu, trazendo para Stamford Bridge o tão almejado troféu de vencedor da Champions League. Surpreendentemente, os Blues falharam ambos os objetivos (no campeonato foram suplantados pelo Manchester United e, na liga milionária, caíram, na meia-final, aos pés do Liverpool) e tiveram de se contentar com troféus de menor gabarito – FA Cup e Capital One Cup.

Segunda paragem, época 2012/2013. Quebrado o ciclo de vitórias do Super Barcelona, a família merengue, sedenta de glória, incumbe José Mourinho de dar início a uma nova dinastia em Espanha e de brindar o Bernabéu com La Décima. Nova missão hercúlea para José Mourinho, nova desilusão. Os blancos terminaram a época com apenas um troféu… a Supertaça Espanhola.

Regressemos, agora, à presente época, a última paragem desta viagem. É certo que pouco mais de um mês decorreu desde o arranque oficial da época e que seria precipitado dar este Chelsea como derrotado, todavia, os mais recentes resultados dos Blues não vaticinam uma época auspiciosa para José Mourinho e para os seus pupilos. Não só iniciaram a época a perder um troféu, a Community Shield, como permitiram que o seu maior concorrente na luta pelo título, o Manchester City, conquistasse 8 pontos de vantagem em apenas 4 jornadas de campeonato. Mesmo Stamford Bridge, a fortaleza de José Mourinho, parece ter perdido a mística de outrora, como o comprovam o empate frente ao West Bromwich Albion e a derrota perante o Crystal Palace.

Não é meu intento procurar ou propor fundamentos que justifiquem este fenómeno (se é que lhe posso atribuir tal denominação), na medida em que ao fazê-lo estaria a incorrer num exercício de natureza puramente especulativa, no entanto, será, porventura, legítimo inferir que as equipas da terceira época de Mourinho tendem a ser um mero resquício daquilo que foram nas épocas precedentes (ciclo vicioso?).

Muito se escreveu, escreve e escreverá sobre Mourinho, todavia, raras vezes encontramos o nome do técnico português associado ao insucesso. Os resultados desta época do Chelsea e, por conseguinte, a variável “3.ª Época” poderão, no entanto, inverter esta tendência. Nenhuma carreira, nem mesmo a de um predestinado, é incólume e até a mais perfumada das rosas tem espinhos. Será que o almighty José Mourinho tem um prazo de validade?

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Pedro Pateira

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