As uvas estavam verdes?

Franco Cervi foi o mais recente capítulo da guerra Sporting-Benfica. Tal como Churchill prometeu lutar nas praias, nos campos e nas colina, estes clubes lutam no relvado, nas redes sociais, e claro, no mercado de transferências. Os benfiquistas levaram a melhor, elogios à estrutura, à capacidade negocial, ao poder financeiro, risos de mais uma vez verem o rival ficar de mãos a abanar.

Os sportinguistas, respondem com a teoria da raposa, que talvez as uvas estivessem ainda demasiado verdes para serem comidas. Antes de avançar, há que admitir que o comum adepto tenta ver o copo meio cheio; o Douglas é bom, mas se não veio é porque se arranja melhor, seja o Naldo, ou o Ciani, que afinal veio e foi-se, ainda bem que detectaram o barrete a tempo, fica cá o Tobias que bate esses todos. Do mesmo modo, Cervi's há muitos, como diria Vasco Santana, caso fosse comentador televisivo.

Mas no caso particular do extremo argentino, muita da estratégia da Direcção do Sporting deixa dúvidas. Em primeiro lugar, havendo (havia?) 3 ou 4 milhões para investir, porque não fazê-lo em jogadores que colmatassem evidentes lacunas da equipa? A posição de extremo é daquelas em que o Sporting até está melhor servido, e se a ideia era ir buscar um substituto para Carrillo (que pode sair no fim da temporada, ou até em Janeiro), porquê arriscar num atleta sem provas dadas? E a não ser que estejamos aqui a falar de um comprovado fora de série, qual a utilidade adicionar aos seus quadros mais um jogador jovem, na linha de Gelson, Podence Iuri ou Matheus, ainda mais quando tem um perfil físico em tudo idêntico ao açoriano, por exemplo? Não desfazendo da vontade de fechar o negócio, este caso parece encaixar-se na máxima de que há males que vêm por bem, até porque de portentos de 3 milhões a casa está bem servida. De qualquer modo, este episódio deixou bem patente que a capacidade negocial do Sporting ainda é frágil, condição essa acentuada quando entram outros jogadores em campo. É sabido que hoje em dia não basta aparecer à porta de um estádio com uma mala cheia de notas, e convencer jogador e presidente do clube a fazer negócio. Há empresários, agentes, intermediários, detentores de parcelas de passes, tutores, advogados, pais e periquitos, toda a gente quer dinheiro no bolso. Pela complexidade da situação, exige-se celeridade (secretismo, esse, é quase impossível de manter) e argumentos. Os argumentos, passam pelos financeiros, mas não só, e a postura do clube perante fundos de investimento e empresários são mais um factor que torna as posições negociais ainda mais delicadas.

Se no caso de Cervi, como referido, o mal foi menor, noutros as consequências foram mais gravosas. Danilo Pereira preferiu atravessar o Freixo, privando Jesus de um elemento "à Jesus", com a disponibilidade física de que o treinador tanto gosta. O Sporting perdeu assim um elemento já habituado à Liga portuguesa, e que podia perfeitamente ser o sucessor de William na posição seis. Veio Bruno Paulista, fisicamente semelhante, mas sem o andamento necessário para entrar de caras na equipa, razão pela qual Adrien se tem sacrificado numa posição que, não lhe sendo estranha, não é a sua. Mais um investimento de vulto, cujo valor exige retorno imediato, com este a tardar em aparecer.

Douglas era o alvo preferencial para comandar a defesa, e também esse foi falhado, devido a complicações de última hora. Veio Ciani numa operação rápida, mas cedo se percebeu que era um reforço de peso, mas apenas no sentido literal da palavra.

Claro que o mercado de transferências não trouxe somente derrotas para Alvalade, e alguns dos objectivos, como Ruiz ou Gutierrez, foram alcançados após difíceis e longas negociações, demonstrando perícia.

Naturalmente, nem todos os rumores se concretizam ou todas as transferências apalavradas passam para o papel. Di Maria não está na Luz até Janeiro, Lucas Lima não mora no Dragão, e Mitrovic escolheu outros ares, isto dando apenas alguns exemplos. Ou seja, por maior conta bancária e amigos influentes que se tenha, é impossível ganhar todas as batalhas. Porém, os negócios aqui descritos mostram um leão que ainda tem dificuldades em caçar presas de maior porte, e em competir com outros predadores. E que muitas vezes olha para outros terrenos de caça, sem necessidade de o fazer, quase que como um prémio de consolação.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

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