A Razão Inicial

Desenho: Pipa Carvalho Dias
Estádios projectados pelos melhores arquitectos e erguidos à custa de milhões de Euros. Legiões de seguidores colados a uma televisão, sozinhos em casa ou amontoados em bares. Material desportivo de luxo e feito com a mais alta tecnologia. Penteados dignos de um qualquer desfile de moda. Depilação primorosamente feita. Doping, Fair-Play, transição, fora-de-jogo e basculação. Dirigentes, treinadores, médicos, jornalistas e agentes. Fama, ódio, luxo e vaidade. Promiscuidade e efemeridade. 

Agora esqueçam isto tudo. Pensem na razão inicial. Não tinha nada que ver com isto...Porque é que todos, a certa altura da vida, sofremos da mesma doença? Terá algo do descrito no primeiro parágrafo a ver com a razão inicial?…Bem, provavelmente não...Mas então, o que é a razão inicial? Simples, é aquilo que nos faz não ter fome. O que nos leva a não nos cansarmos. Aquela vontade inquebrável em correr como se não houvesse amanhã, aquele orgulho em ser carregado e não cair, são as calças rasgadas como troféu duma batalha da qual se saiu ileso.

Hoje todos esqueceram a razão inicial. Orgulham-se disso. Dizem que não são ingénuos ou que o jogo é só para inteligentes. Mas há quem se agarre a ela como se a sua vida dependesse disso. Porque há vidas em que a vida não é feita de viver mas de sobreviver. Porque há sonhos que não são pesadelos mas que se chamam realidade. Porque no meio da lama, da fome, da guerra e da doença, há poucas coisas a que se agarrar. 

A razão inicial deve ser a melhor dessas coisas. Porque nela todos são iguais. Todos possuem os mesmos privilégios e obrigações perante ela. Ela obedece aos que a amam, chora e repugna os que a agridem. É o carinho dos pés, sejam eles rudes ou esbeltos, estejam eles calçados ou descalços, que define o comportamento da razão inicial. Por muito que no mundo muitos a abandonem, há quem se agarre eternamente à razão inicial. Quem a venere como altar de glorificação. A razão inicial é a bola.

Pedro Barata

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