A outra Premier League

Corria o ano de 1996, quando Danny Boyle lançava para o grande ecrã um dos maiores filmes de culto dos anos 90. Trainspotting foi um marco no novo cinema britânico, e um arrojado ensaio visual sobre a toxicodependência, mas acima de tudo uma abordagem sociológica às diferenças marcantes entre a população jovem e as elites de Edimburgo. Num dos diálogos mais marcantes do filme, Renton o personagem que atirou Ewan McGregor para a ribalta, à conversa com Spud, Sick Boy e Tommy, enquanto vagavam pelos verdejantes vales verdes escoceses, afirmou que “It´s shite being scottish”, rematando depois com o facto da Inglaterra ter colonizado a Escócia ter tido também a sua importância. Mal sabia Renton, que o seu “amado” País, viria 2 décadas mais tarde a ter uma Premier League que quase faz jus ao adjectivo por ele utilizado.

De facto, a Premier League Escocesa é hoje dos últimos bastiões do puro futebol britânico. O kick and rush, o 4-4-2 clássico, os dois pontas de lança e os cruzamentos da linha de fundo, continuam a ser uma imagem de marca no futebol escocês.

Enquanto os vizinhos ingleses se deixaram “colonizar” por Wenger, Mourinho ou Benitez, e estes trouxeram de outras latitudes, interpretes como Bergkamp, Henry, Drogba, Robben, Torres ou Xabi Alonso, para juntar a outros interpretes que já tinham chegado ou estavam a chegar como Cantona, Ronaldo, Aguero ou Yaya Toure, os escoceses mantiveram a linha centenária do seu futebol, polvilhada aqui e ali por alguns craques como Larsson, Nakamura, os irmãos De Boer e porque não os adorados portugueses Jorge “Put the ball in the net” Cadete e Pedro “Jesus Christ” Mendes.

E enquanto na nação mor do Império, a Premier League é hoje um dos produtos mais apetecíveis para todo o mundo futebolístico, pela qualidade dos seus treinadores e jogadores, pela imprevisibilidade dos resultados, pela incrível capacidade financeira, mas também pela atmosfera única e vibrante nos seus estádios, a outra Premier League, definha pelo ranking da Uefa ano após ano, e um dos poucos motivos de interesse, o seu electrizante derby Old Firm, está também em suspenso há três épocas, depois do afastamento por motivos financeiros dos protestantes, Glasgow Rangers.

Esse episódio, marcou indelevelmente o futuro da Liga Escocesa, já que foram os seus pares na Premier League que votaram favoravelmente a exclusão do Rangers por motivos económicos, mesmo quando os responsáveis da Liga já previam o subsequente decrescer de interesse e qualidade, mas também a perda de competitividade da mesma. Falaram mais alto as rivalidades históricas, e a possibilidade de alguns clubes que viveram durante décadas na sombra da dominância dos grandes de Glasgow, fazerem uma gracinha. 3 anos mais tarde, os piores receios confirmaram-se. O Celtic venceu todos os campeonatos, mas mesmo assim, foi desinvestindo gradualmente, até se tornar numa equipa suficiente para consumo interno, mas banal na Europa, porque a rivalidade que os motivava ano após ano deixou de existir. Os católicos rezam secretamente para que seja esta época que o seu grande rival vença a Segunda Divisão e volte ao convívio dos grandes. Outro dos motivos para a falta de prestígio da Liga Escocesa prende-se com o seu formato. Primeiro com apenas 10 clubes, que posteriormente passaram a 12. Isso deveria fazer os teóricos que defendem uma redução drástica dos quadros competitivos em países como Portugal, repensarem no assunto. De facto há muitos jogos grandes, há derbies com regularidade, financeiramente parece apelativo para potenciais compradores como o mercado televisivo, mas o efeito dessa estratégia no aumento da competitividade está ainda por demonstrar.

No plano da competição propriamente dita, o Celtic tem dominado a seu bel prazer. Caminha para o penta campeonato, mas mesmo assim o seu número de títulos ainda é inferior ao do seu rival eterno.
Dado o facilitismo, o Celtic tem desinvestido gradualmente nas últimas épocas. Primeiro perdeu o técnico Lennon para o Championship da Inglaterra, sendo substituído por Ronny Deila, o milagreiro norueguês que pôs o Stromgodset no mapa, e depois foi perdendo as suas principais figuras, como Fraser Forster ou Gary Hooper, perdendo também para a outra Premier League, aquele que era porventura o melhor jogador da Premiership, o central holandês Van Dijk um defesa muito completo e de grande presença claramente talhado para outros voos. A concorrência a nível interno resumia-se ao Aberdeen, a última equipa fora dos grandes de Glasgow a conquistar o título escocês, quando há 30 anos um desconhecido senhor chamado Alex Ferguson os guiou ao bicampeonato. Mesmo assim, e com um dos Celtics mais fracos de sempre o Aberdeen conseguiu ficar a 17 pontos…

Já nesta época a grande surpresa é o Hearts que há duas épocas também desceu de divisão após gravíssimos problemas financeiros. O clube que com o técnico português Paulo Sérgio ao comando, venceu a Taça da Escócia, ficou com uma pesada herança do multimilionário lituano Romanov, ou a versão mais truculenta de Abramovich na Escócia. Dispensou toda a equipa, apostou nos meninos da sua formação e no treinador da equipa de juniores, Robbie Neilson. Acabaram por vencer de ponta a ponta a Segunda Liga, adiando o sonho do Rangers, mas também do seu grande rival de Edimburgo, o Hibernian, e voltaram esta época à Premier, onde se estrearam com 5 vitórias em outros tantos jogos garantindo o 1º lugar. Nesta equipa pontifica por exemplo o antigo central do Marítimo Igor Rossi. Como jogadores a seguir destacam-se no campeão Celtic os defesas Izaguirre internacional hondurenho e Ambrose internacional nigeriano, como também para o norueguês Johansen um médio ofensivo com um excelente pé esquerdo bem como para James Forrest o bom exemplo do extremo clássico britânico e no Hearts para a juventude rebelde do extremo Billy King, do médio centro Sam Nicholson, mas principalmente de Callum Paterson de apenas 21 anos antigo ponta de lança que Neilson adaptou com muito sucesso a lateral.

Por incrível que pareça, o futuro do futebol escocês, quer a nível interno, quer da sua Selecção orientada por Gordon Strachan, reside na segunda divisão. Os regressos dos históricos Rangers e Hibernian trarão com certeza a competitividade de volta aos relvados escoceses, mas também a notoriedade e mais pujança financeira, e pode ser que de hoje a um ano vejamos Begbie aos berros no pub a apoiar o seu Hibernian, e Renton, Spud e Sick Boy, mais satisfeitos com o progresso da Liga do seu país.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Flávio Trindade

Etiquetas: