5: Um Dragão de Berço

Foi um herói improvável a decidir o primeiro clássico da temporada. Ou talvez não, tendo em conta a forma recente de André André. O médio que veio da Cidade Berço tem vindo a ganhar espaço na equipa de Lopetegui e é, neste momento, o patrão do meio campo azul e branco, não só pelo que joga (esteve em todos os lances de perigo) mas pelo coração que aplica em qualquer bola que disputa. Havia dúvidas sobre a capacidade do jogador de 26 anos fazer a transição do Vitória de Guimarães para o FC Porto, mas elas já não existem. Depois de decidir um clássico frente ao Benfica, deixando o rival a 4 pontos de distância, André ficou a um pequeno passo de se tornar uma referência, a referência que tem faltado no Dragão (Helton é o mais próximo disso, sendo que é suplente). Para o Benfica, tornou-se um inimigo público. O golo que marcou, já perto do final, deixa os encarnados com um atraso considerável em termos pontuais e em termos anímicos. Um empate no terreno do principal adversário podia ser o tónico necessário para a equipa de Rui Vitória estabilizar definitivamente, mas, deste modo, a pressão não vai dar descanso ao timoneiro dos lisboetas. O bicampeão tem, ainda assim, alguns indicadores positivos que sobram do clássico. Desde logo o facto de não ter jogado retraído e ter enfrentado o adversário nos olhos, conseguindo até superiorizar-se no primeiro tempo. Já se vê alguma identidade e uma quebra com o passado, depois de uma fase em que ainda se fazia sentir de forma bem vincada o "cérebro" de Jesus. Em Alvalade, já houve mais motivos para sorrir. O caso Carrillo, por mais que se tente negar, tira muitas hipóteses de o Sporting sonhar com o título, e as exibições sem o peruano têm sido confrangedoras. Salvam-se, apesar de tudo, o mais importante: os pontos. Mesmo sem jogar bem, os leões conseguiram derrotar o Nacional, graças aos suplentes Mané e Montero (que, curiosamente, não estão a dever muito a Ruiz e Teo, os reforços mais sonantes para esta temporada). Gelson não é Carrillo, por muito talento que tenha, e João Mário já teve mais preponderância nesta equipa. Os regressos de Ewerton e William serão um balão de oxigénio num conjunto que precisa de subir o nível se quiser continuar na liderança.

A jornada 5 trouxe as primeiras chicotadas psicológicas do campeonato. Primeiro foi José Viterbo, o líder espiritual da Académica, mas pouco mais do que isso quando é necessário meter a equipa a jogar futebol. É certo que o plantel é limitado, mas a Briosa ainda não pontuou (desta feita perdeu com o Boavista, em casa, por 2-0) e não havia outra solução senão o despedimento do técnico que assegurou a manutenção na última temporada. Armando Evangelista, promovido da equipa B do Vitória, foi o senhor que se seguiu. Depois do afastamento prematuro na Liga Europa, os maus resultados na liga não deram margem de manobra ao clube minhoto, que tem qualidade suficiente para não andar tão afundado na tabela. A jogar contra 10 desde os minutos iniciais, não foi além de um empate a duas bolas em Setúbal. Os homens do Sado têm condições para fazer uma época tranquila, mas não deverão ter capacidade de chegar à luta pela Europa. Esses postos começam a ser ocupados pelos candidatos mais prováveis: o Braga, que goleou e teve um Stojilijkovic novamente em grande, o Estoril, que está num excelente quinto lugar e já foi à Luz e ao Dragão, Belenenses, que conseguiu a 1.ª vitória na Liga, e o Rio Ave, que deu uma demonstração de força ao golear o Paços de Ferreira.

Equipa da semana - Rio Ave - Não vão ser muitas as equipas que vão golear à Mata Real. É certo que o resultado é um pouco exagerado mas, depois da boa réplica deixada frente ao Sporting, os vilacondenses voltaram a dar provas de qualidade. A exibição foi bastante boa do ponto de vista colectivo, mas houve dois jogadores a sobressair: Heldon, sem nível para os leões mas muito acima da média no Rio Ave, e Edimar, um dos melhores laterais-esquerdos da liga. 
Equipa desilusão - Vit. Guimarães - Uma prestação que até pode envergonhar os adeptos vitorianos. A jogar contra 10 e em vantagem no marcador desde os 2 minutos, os vimaranenses encolheram-se e demonstraram as imensas debilidades que têm neste momento. Há pouca coesão defensivamente e no ataque não existem ideias, daí que não tenha surpreendido a saída de Evangelista. Veremos se Sérgio Conceição consegue levantar esta equipa ainda nesta temporada. 
Melhor Onze - Kieszek (Estoril), Anderson Luís (Estoril), Paulo Monteiro (União), Nuno Henrique (Boavista), Edimar (Rio Ave), Vukcevic (Sp. Braga), André André (FC Porto), Carlos Martins (Belenenses), Arnold (Vit. Setúbal), Héldon (Rio Ave) e Stojiljkovic (Sp. Braga)
Jogador da semana - André André - Quis o destino que a sua afirmação acontecesse no jogo contra o treinador que lhe permitiu chegar à selecção. O MVP do Clássico esteve em todo o lado, jogando e fazendo jogar, e mereceu ser o herói portista. Com um raio de acção muito abrangente, tem mostrado uma intensidade notável, quer a atacar quer a defender, e a sua capacidade de passe tem sobressaído. É um jogador que sabe o que é "ser Porto" e isso percebe-se em cada lance que disputa. 
Jogador a seguir - Costinha - É uma história que se repete. O Vit. Setúbal todos os anos tem servido de porta de entrada na I Liga para os bons valores dos escalões secundários. Costinha é mais um que demonstra que há muita qualidade no CNS. O extremo tem dado nas vistas com a sua técnica e velocidade, já marcou 2 golos, e nesta jornada, frente ao Vit. Guimarães, revelou também qualidade no capítulo defensivo, tendo jogado a médio durante quase toda a partida devido à expulsão de Pacheco aos 2 minutos.
Jogador desilusão - Brahimi - O FC Porto até venceu e o argelino inclusive iniciou a jogada que deu o golo, mas tudo o resto foi mau. E se o Clássico serviu para confirmar o bom momento de André André, também evidenciou o pior que há em Brahimi. O extremo engasgou todas as jogadas portistas, definiu quase sempre mal, continua nesta fase a procurar quase sempre o 1 contra 1 em vez de simplificar, e acabou engolido por um jovem lateral que na época passada estava na II Liga. O talento está lá, é um dos mágicos da Liga, mas desde Dezembro (bem antes da CAN, que tem servido como desculpa), que o argelino não acrescenta o suficiente ao jogo portista.

T. Cunha

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