“O primeiro defesa-lateral a ir à linha de fundo cruzar”.
Este poderia muito bem ser o slogan de apresentação de
Giacinto Facchetti. Lenda do “Grande Inter”, Facchetti foi dono e senhor do
corredor esquerdo da dream team milanesa que, orientada
por Il Mago, Helenio Herrera, dominou o futebol europeu e mundial
na década de 60. Retratado pelo site da FIFA como “o Pelé das artes
defensivas”, o defesa transalpino representou somente os Nerazzurri ao
longo da sua carreira (1960 – 1978), sagrando-se tetracampeão italiano e
bicampeão europeu e mundial pelo emblema da região da Lombardia, tendo ainda
conquistado o Campeonato da Europa de 68 pela Squadra Azzurra. A
classe e a qualidade do seu jogo valeram-lhe, em 1965, o segundo lugar na
corrida pela Bola de Ouro atribuída pela France Football (galardão
que naquele ano seria atribuído a Eusébio) e motivaram Massimo Moratti a
retirar, em 2006, a camisola n.º 3 do FC Internazionale Milano, que Facchetti
havia envergado em 634 ocasiões.
Certamente poderia ser dedicada uma extensa obra aos
feitos e às conquistas de Giacinto Facchetti, todavia, não é meu propósito
debruçar-me sobre tal matéria, pois tamanhas façanhas, essas, estão cravadas
nos livros da história. As linhas que se seguem debruçar-se-ão antes sobre o
legado que Facchetti deixou à modalidade pela qual todos nós somos apaixonados
e ao papel que desempenhou na evolução e reconceptualização do jogo e das suas
linhas orientadoras.
De facto, o impacto de Facchetti no jogo foi tal que
poderíamos falar numa era pré-Facchetti e numa outra pós-Facchetti. Adaptado
por Helenio Herrera a lateral-esquerdo, Il Cipe não se limitou
a mimetizar os defesas da sua geração. Pelo contrário, aliou as suas novas
tarefas defensivas aos conhecimentos e movimentos que havia apropriado ao longo
de toda a sua formação, em que atuou como ponta-de-lança e extremo, conferindo
à sua equipa um revigorante fulgor ofensivo. O seu estilo de jogo, à data visto
como irreverente e ousado, fizeram de Facchetti, não um dos pioneiros, mas
antes O Pioneiro no processo de definição das competências ofensivas de um
defesa-lateral. Não admira, portanto, que, num período em que as funções dos
laterais se limitavam à esfera defensiva, Facchetti tenha surgido com um balão
de oxigénio nos relvados europeus.
Ainda assim, não obstante o estatuto de que gozou durante
a sua carreira, o maior elogio dirigido a Facchetti foi prestado pelo futebol
como jogo e modalidade. Surgindo anos-luz à frente dos seus homólogos,
Facchetti definiu como os defesas-laterais passariam a jogar e a movimentar-se
em campo, em suma, definiu como seria o defesa-lateral do futuro, tanto que nos
dias que correm não é concebível que um defesa-lateral de qualidade se coíba de
participar no processo ofensivo da sua equipa. Mais de 35 anos volvidos desde a
aposentadoria do italiano, é indubitável que todos os defesas-laterais carregam
aos ombros o legado de Giacinto Facchetti, ostentando no verso das suas
camisolas “Je suis Facchetti!”.
Se, por um lado, é verdade que Facchetti representa um
aprimoramento estético do jogo, também o é que nem tudo foi um mar de rosas,
pois qualquer mudança ou transição acarreta consigo, concomitantemente, efeitos
benéficos e nefastos. Os segundos, no entanto, tiveram, somente, repercussão no
século XXI, pois se em meados do século XX o plano de jogo de um defesa-lateral
se cingia ao meio-campo da sua equipa, a verdade é que as mudanças operadas,
relativamente ao papel desempenhado por estes jogadores, culminaram,
recentemente, na formação de defesas-laterais que pouco têm de defesas, pois,
ao contrário de Facchetti, os defesas-laterais que atuam competentemente tanto
no plano defensivo como ofensivo são uma raridade e vistos como verdadeiras
preciosidades na atual conjuntura futebolística. Aliás, Jamie Carragher ironizou
na perfeição o perfil do defesa-lateral contemporâneo quando afirmou que estes
“ou são extremos fracassados ou são defesas-centrais fracassados”, rematando,
jocosamente, que “ninguém sonha vir a ser um Gary Neville!”.
Ironia à parte, este comentário explana fidedignamente um
dos problemas cimeiros do futebol atual, que se prende com o facto dos agentes
do meio futebolístico privilegiarem o papel ofensivo dos defesas-laterais em
detrimento do papel defensivo, resultado de uma gradual desvirtuação da posição
que ocorre desde a segunda metade do século XX. Aliás, hoje, mais do que nunca,
é natural vermos extremos a seguir as pisadas de Facchetti e a recuarem no
terreno para se assumirem como laterais improvisados. O problema surge, no
entanto, do facto destes não aprimorarem os seus atributos defensivos, o que
leva a que uma afirmação como “O Marcelo, do Real Madrid, é o melhor lateral
esquerdo do mundo” seja, ainda que deveras contestável, plausível. Todavia,
basta recuarmos, somente, 10/15 anos no tempo, para que tal afirmação nos surja como
um insulto aos jogadores que atuavam naquela posição – Maldini, Roberto Carlos,
Lizarazu, Abidal, Heinze, Ashley Cole, etc. Esta comparação cronológica expõe,
sem sombra de dúvida, a gritante – e, pior ainda, crescente – precariedade que
a posição de defesa-lateral atravessa. De resto, e após algumas horas de
meditação, concluí que somente uma equipa de topo da actualidade recorre a dois
defesas-laterais “à moda antiga”: Chelsea FC… A resposta talvez não surja como
uma surpresa, ou não fossem os londrinos orientados por José Mourinho, no
entanto, até mesmo o Special One teve de contornar o imbróglio
que é cerne deste comentário, pois nem Ivanovic, nem Azpilicueta atuam na sua
posição de origem: o primeiro surgiu no futebol como defesa-central (função que
ainda desempenha na seleção nacional da Sérvia) e o segundo foi adaptado ao corredor
esquerdo, face às debilidades defensivas dos concorrentes por aquela posição no
conjunto dos Blues. De resto, quando Filipe Luís (uma contratação
por 25 milhões!) é preterido por um lateral-esquerdo adaptado, compreendemos
claramente quais os atributos privilegiados por José Mourinho no processo de
seleção do seu quarteto defensivo e, ainda, as lacunas que os “novos
defesas-laterais” apresentam.
Não obstante o facto de Mourinho ser considerado um
“exemplo a seguir” no planeta do futebol - pelo menos, a respeito da sua
inteligência e astúcia tática -, a verdade é que esta sua filosofia não tem
muitos seguidores, nem é provável que os venha a conquistar no futuro (não
pretendo com estas palavras questionar a qualidade de Mourinho, aliás, toda a
sustentação que corrobora a minha opinião é completamente alheia à figura de
Mourinho). Ainda que o problema que deu origem a este comentário seja evidente
e esteja identificado por todos os que acompanham a modalidade, os agentes do
jogo não parecem preocupados em solucioná-lo. Parece-me, antes, que o futebol
atravessa, atualmente, uma crise de identidade que começa, agora, a motivar uma
mutação das noções básicas e da filosofia do jogo. É, até, plausível afirmar
que atravessamos um período de transição, em que o futebol procura
reinventar-se, de modo a adaptar-se às problemáticas que enfrenta, de resto,
tal como aconteceu há cerca de meio século atrás, no período “pós-Facchetti”.
Aliás, a meu ver, algumas equipas entraram recentemente nesse processo de
transição e começaram a construir o futuro da modalidade, vendo nas suas
debilidades um meio e uma oportunidade de se anteciparem aos seus adversários.
Basta analisarmos como alinharam o Bayern de Munique, o Manchester United, o
Liverpool e a Juventus ao longo desta época para percebemos que presente e
futuro andam de mãos dadas. Todas as equipas mencionadas implementaram ou
tentaram implementar um sistema tático defensivo assente em 3 defesas centrais
e dois alas, solução que surgiu, creio, como resposta ao facto do defesa-lateral,
na verdadeira acepção da palavra, ser uma espécie que se encontra praticamente
extinta. Atendendo às debilidades e virtudes dos defesas-laterais
contemporâneos, arrisco-me a afirmar que, nos anos que se avizinham, todas as
equipas terão que realizar este procedimento, dando origem a uma nova era no
futebol, que, possivelmente, vigorará tanto, ou mais, tempo como a do
“pós-Facchetti”, até que dela advenham novos problemas e o futebol encontre,
novamente, urgência em modificar e abalar os alicerces das noções básicas do
jogo.
Na História da Civilização, perante adversidades e
obstáculos, por meio da mudança e da adaptação, o Homem prevaleceu…Na História
do Futebol, mais do que o Homem, prevaleceu o Adepto!
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Pedro Pateira