Quando até Sérgio Ramos dribla melhor que o Bola de Ouro

Como é que um jogador que começou a carreira como um fantasista perdeu drasticamente essa faceta do seu jogo?

Não há dúvida alguma (ou pelo menos não devia haver): Cristiano Ronaldo é o melhor jogador português de sempre. Talvez o melhor desportista. É também, definitivamente, um dos dois melhores jogadores do mundo actualmente. No entanto, como todos os seres humanos (porque por mais que lhes chamemos ET’s, Messi e Ronaldo continuam a obedecer às leis básicas da Biologia como a conhecemos), tem lacunas no seu jogo. A maior delas é, neste momento, a capacidade em desequilibrar, principalmente nas acções do 1 contra 1.

O que não deixa de ser estranho. Basta ver o seu primeiro golo como profissional para perceber esta afirmação: o jovem Cristiano, miúdo franzino e com energia que nunca mais acabava, era um jogador de apuradíssima técnica, factor, aliás, que o distinguia dos demais, colocando-o num patamar de talento superior. Foi com a sua capacidade técnica que maravilhou Ferguson e deixou os olhos do mundo postos em si. Nos tempos do United, quando era indiscutivelmente o melhor do planeta (até ao último ano, quando surgiu Messi em máxima força), deixava defesas caídos no chão que nem pinos de bowling e olhos a precisar de ir ao oftalmologista por estrabismo agudo. Fazia dos defesas anões e erguia-se sobre eles com fintas fantásticas e um ritmo de pés estonteante, merecendo até o desprezo dos jogadores da Roma por alegadamente desrespeitar os colegas de profissão.

Porém, olhamos para o Ronaldo de hoje e não vemos o mesmo jogador. A técnica foi substituída pelo faro de golo, as correrias pelo corredor por recordes atrás de recordes goleadores. Mais: o rapaz que deixava centrais e laterais de craveira mundial com tonturas não consegue agora ultrapassar no um-para-um os defesas das equipas mais fracas da Liga Espanhola. Que se passou? Perdeu o talento? Foi-lhe roubado, qual golpe de cinema à Space Jam? Ronaldo foi substituído por um extra-terrestre? Talvez um Life Model Decoy como nos comics da Marvel. É, de facto, difícil de entender como uma pessoa perde, pura e simplesmente, capacidade técnica de forma tão drástica, de ser um dos melhores do mundo nesse aspecto a que essa seja a maior lacuna no seu jogo. O facto é que Ronaldo, além de ter menos técnica pura que Isco ou Marcelo, é menos eficiente a ultrapassar adversários que o próprio Sérgio Ramos. Sim, o central do Real Madrid.

Claro que tudo no futebol se treina e a falta de prática leva a menor consistência em determinado atributo. Contudo, esta é uma mudança demasiado radical para ser explicada apenas por isso. Ronaldo tem agora medo do choque (o facto de saber que está quase nos trinta também deve pesar), é um jogador mais calculado e calculista e está mais virado para fazer golos que fintar adversários. Porém, se calhar não é incontestavelmente considerado o melhor do mundo por não ser capaz de ultrapassar defesas contrários com relativa facilidade — aliás, não os ultrapassa, ponto. As recepções? Em dez, faz seis ou sete deficientes.

Este é um caso provavelmente mais estranho que o envelhecimento reverso de Brad Pitt (ou, sendo purista, da personagem de Scott Fitzgerald). O português não deixa de ser quem é e de ter a tremenda qualidade que tem; todavia, deixa alguma pena ter perdido esse elemento tecnicista do seu jogo e até é prejudicado nos debates por isso. Até porque o futebol, além de golos, continua a ser fantasia.

Visão da Leitora (perceba melhor como pode colaborar no VM aqui!): Inês Sampaio

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