Por tudo o que foi vivido pelo universo benfiquista nestes últimos quatro anos, e acima de tudo pelo que se tem visto estas últimas semanas, estar-se-á em condições para afirmar que dificilmente haverá no futebol um presidente e um treinador da mesma equipa com tantas semelhanças, como as que existem entre Luís Filipe Vieira e Jorge Jesus.
Consciente de que esta opinião está, como todas as outras, sujeita a uma não aceitação por parte de outros, é minha forte convicção que a química construída entre os dois, e que agora é atestada pelo seu discurso, só existe devido ao facto de ambos possuírem personalidades que muito se assemelham. Luís Filipe Vieira, desde o dia 1 do seu primeiro mandato, com as constantes promessas que foi fazendo, com o discurso marcadamente demagógico e populista que foi adotando e pelos desejos irrealistas e idealistas que nunca se coibiu de defender a alta voz, tornou-se numa personagem próxima dos adeptos benfiquistas, a ponto de nem a escassez de títulos ao longo de uma década fazer com que estes questionem a sua autoridade dentro do clube. Luís Filipe Vieira tem demonstrado ser alguém que não abdica de uma ambição desmedida, pois considera que, mais tarde ou mais cedo, é esse o caminho que o vai levar a atingir a perfeição que desse sempre manteve na sua mente. Mas até quando os adeptos vão apoiar esta filosofia que tarda em trazer para as vitrinas do museu benfiquista os tão desejados troféus e se vão continuar a deixar levar pelo seu discurso cheio de promessas e vazio de títulos?
Jorge Jesus, por seu lado, com o seu ego inflamado, as suas verdades inquestionáveis e o mestrismo tático que não se cansa de proclamar, veio revolucionar o seio do clube encarnado com o seu futebol ofensivo, romântico e coroado com a tão propalada nota artística. Pelas suas opções táticas, pela valorização operada em vários ativos e pela sua própria visão, por vezes insensatamente inocente do jogo em si, cativou os adeptos do clube logo a partir do primeiro ano em que a equipa se sagrou campeã. Por tudo isto, Jorge Jesus, à imagem do seu presidente, tem uma visão idealista do que é o futebol, visão essa que, mesmo sendo irreal e onírica, dado o pragmatismo que hoje se vive no desporto em geral, não admite abandonar, tendo-se já percebido que, mesmo quando o tenta fazer as coisas não lhe correm de feição, simplesmente porque não está na sua natureza ser assim. A sua aceitação dentro do universo benfiquista, no entanto, começa a ser definitivamente posta em causa. Pelo segundo ano consecutivo, o Benfica deixa fugir os objetivos que há tanto persegue e, como o próprio Jesus referiu, a falta de sorte não pode justificar tudo. Se o ano passado deixou algumas marcas, esta época que agora termina, não será esquecida tão cedo. Houve um investimento brutal no plantel, nomes como Salvio, Ola John e Lima chegaram para acabar com a hegemonia portista. Além disso, os principais rivais perderam, com a saída de Hulk, a sua principal figura, sem terem contratado alguém à sua altura para o substituir. Todos estes factos, em conjunto com um fim de época miserável, em que o Benfica joga no Dragão para o empate, perde a final da taça de maneira inacreditável, com uma falta de atitude inconcebível e com a cena lamentável de Cardozo que demonstra que o balneário há muito abandonou Jorge Jesus, levarão a que os adeptos repensem todo o apoio demonstrado até agora ao treinador e suas decisões.
Por tudo o que até aqui foi dito, penso que estamos na presença de duas personalidades que sentem o fenómeno futebolístico da mesma maneira, sendo-lhes fácil encontrar objetivos comuns e manterem, ao longo dos tempos, um discurso análogo que visa levar o clube ao tão ambicionado sucesso. Posto isto, seria de esperar que tamanha convergência de interesses e de formas de pensar estaria condenada ao êxito total e inquestionável. Todavia, a realidade não tem confirmado essa visão, deixando os benfiquistas a ponderar se devem deixar-se levar pelo idealismo deste duplo D. Quixote que insiste em chegar ao sucesso pelo caminho mais difícil, mas também mais belo e artístico, transformando simples moinhos de vento em verdadeiros monstros, da mesma forma que transformam adversários banais em superequipas, ou então se devem exigir uma mudança e todos os riscos que isso pode acarretar, deixando de se satisfazer com as vitórias morais que esta filosofia tem trazido, mas que não tem redundado em títulos. Não deveria o Benfica escolher um novo caminho mais real e pragmático, que não se deixe levar pela superficialidade da estética e da nota artística, mas pela crueza dos resultados? Não deveria Luís Filipe Vieira abandonar o idealismo e as promessas irrealizáveis, procurando outro treinador que começasse uma nova era? E quanto ao presidente? Até quando a sua excelente gestão dos assuntos extra futebol do clube, será suficiente para encobrir a penúria de títulos?
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar no VM aqui!): António Mota
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