
Delapidação de património, uma dívida insustentável, um défice asfixiante, e acima de tudo um clima de incerteza quanto ao futuro, tudo resultante de uma gestão questionável por um conjunto de indivíduos, que possivelmente se serviram mais do que serviram. Não, este texto não é sobre Portugal ou todos os Governos que se seguiram a Abril, mas sim sobre o Sporting, que hoje pode ser visto como uma perfeita analogia deste nosso País.
Antes de continuar, duas considerações. Primeiro, é necessário uma completa e isenta auditoria à gestão do clube na última década e meia, de modo a espantar o fantasma da suspeição e a apurar responsabilidades em determinadas opções consideradas danosas para o futuro do clube, segundo, embora a situação do clube seja preocupante, não é entrando em paranoias apocalípticas que se resolvem os problemas. E lembremo-nos, o Sporting já foi gerido por um senhor que andou fugido à Justiça, e a equipa de futebol teve nos seus quadros jogadores bem inferiores ao que se arrastam semanalmente pelos relvados nacionais envergando o emblema do leão.
Ao que interessa. O Sporting apresentou-se há uns anos com um novo paradigma de gestão, o do clube-empresa. Há quem diga que foi esse o fim do clube enquanto potência. Que os bancos tomaram o poder, e as gravatas substituíram as chuteiras. Discordo. Na minha opinião, o declínio do Sporting aconteceu quando a instituição não adoptou os procedimentos de uma empresa. Na realidade, o Sporting é tudo menos uma empresa. Ou melhor, uma empresa a sério, e não daquelas que bem conhecemos, cuja única função é servir de poiso a uns quantos encartados da política, que põem e dispõem em benefício próprio sem olhar ao futuro. Começando pelo que deve ser o objectivo de uma empresa, sempre nos foi dito que o principal seria o lucro. Nada mais errado. O lucro, ou melhor, a sustentabilidade financeira é essencial, mas é apenas o resultado daquilo que realmente importa: apresentar um produto de qualidade que as pessoas queiram comprar. E este foi o principal erro das sucessivas Administrações; o Sporting Clube de Portugal não gere imobiliário, não vende cartões de crédito ou administra bombas de gasolina, o Sporting vende futebol. E para obter os tais "lucros", tem que vender futebol de qualidade. Daí emanam as camisolas, as gameboxes, as vendas milionárias de jogadores. Paralelamente, para quem se dirige a gestão do clube? Accionistas? Credores? Errado... para os clientes. Uma empresa deve, acima de tudo, manter os seus clientes satisfeitos. Que neste caso são os adeptos. Claro que os adeptos não podem nem devem administrar o clube, mas as suas opiniões devem ser tomadas em consideração, como qualquer companhia adequa a sua estratégia em função dos desejos dos consumidores a que se dirigem. Depois, é indispensável definir uma estrutura. Uma estrutura leve, maleável, na qual todos saibam quais as suas atribuições. Onde exista uma clara cadeia de comando, e de responsabilidade, e na qual não existam choques de competências. E claro, preencher essa estrutura com pessoal de qualidade, com objectivos e recompensas claramente definidos, e ao qual é incutida uma cultura de exigência. Por último, há a estratégia. A falta dela. Qualquer empresa que se preze tem um plano delineado para o futuro, que pode ser adequado com o tempo (consoante comparação com indicadores de desempenho e também porque as circunstâncias mudam), mas que acima de tudo seja independente de quem o implementa. No caso do Sporting, é preciso uma estratégia, um plano, que seja aplicado independentemente do treinador A, do Director de Futebol X ou do Administrador Y. É impossível gerir uma organização (chamar "organização" ao actual Sporting é algo rebuscado) com um esquema de navegação à vista, com mudanças de direcção depois de cada resultado menos positivo. Não é possível gerir ou alcançar algo sem um bom plano, tal como não é possível aferir de sucessos ou fracassos sem metas previamente estabelecidas.
O Sporting, instituição, passa por momentos difíceis. Mas tal como Portugal, possui um capital humano que lhe permite olhar para o futuro com optimismo. Possui nos seus quadros alguns recursos de comprovada competência, e atrás de si uma falange de adeptos com amor incondicional pelo clube do coração. Faltará o mais fácil e o mais complicado: transformar o Sporting-clube no Sporting-empresa.
Visão do Leitor: Nuno Ranito
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