
Nunca vos aconteceu, quando crianças, o vosso cérebro processar a fonética auditiva de uma palavra de forma a criar uma determinada imagem na vossa mente? La Bombonera. Mesmo antes de me inteirar sobre o fascínio que este estádio exerceria em mim, ler o nome daquele palco era o suficiente para me deixar em sentido. Explosão. De sensações. Cor. Sim, porque o Boca Juniors veste aquela que é uma das camisolas mais vivas e apelativas para quem gosta de futebol. A camisola e escudo que Diego Maradona - clube eternamente associado à rock&roll star mundial - trás tatuado no seu próprio corpo. Com uma capacidade para 49.000 pessoas (todos os jogos o copo transborda de tantos hichas que acorrem às partidas), La Bombonera recheia-se (traduzido para português o nome é 'caixa de bombons') de adeptos que criam atmosfera tal, que sítios como Camp Nou e Old Trafford parecem, em comparação, uma livraria. Os Ultras do Boca Juniors são reconhecidos como os mais apaixonados do mundo inteiro. Tão enamorados que facilmente ultrapassam a fronteira do comportamento razoável. Há décadas que estes mesmos adeptos eram a cara de uma tradição que demonstra o quão obcessivos eles são. Uma tradição única. Extremista. Se procuram por adeptos leais e apaixonados, é na Paris da América do Sul - assim é conhecida Buenos Aires - que os vão encontrar.
Durante muitos anos, estes fanáticos deixaram instrucções às suas famílias para, quando morressem, quererem os seus corpos moribundos cremados e as cinzas despojadas no relvado do La Bombonera. "Nem a morte nos vai separar, até por ti no céu eu vou cantar" é um famoso cântico destes Ultras, e parece que eles fizeram questão de lhe atribuir literalidade. Fascinante como desejo final. Sem preocupações sobre heranças, casas aos que mais amam ou qualquer pedido material. A única coisa requisitada (e intervinham legalmente para que isto sucedesse mesmo) era que os seus restos fossem parte do relvado onde, em vida, os seus heróis os fizeram perder o fôlego. Porque a vida acontece nesses momentos, quando ficamos sem respiração. A tradição teve o seu fim quando, com tanta cinza acumulada no relvado, a relva começou a ficar arruinada. Solução? Construíram um cemitério (!) do Boca Juniors, exclusivo para adeptos e que, não raras vezes, é 'alcatifado' com relva do próprio La Bombonera. Obviamente que tudo isto não sai barato. Já reservaram um espaço para Maradona e tudo! Quanto custará fazer companhia a El Diego para toda a eternidade? Os adeptos do Boca Juniors certamente responderiam que, se fosse necessário, venderiam a mãe para conseguir aquele lugar. No entanto, não há nada como um jogo diante do arqui-rival, o River Plate, para fazer emergir toda a loucura que estes adeptos guardam dentro deles. O vencedor deste super-clássico pode conhecer um nome diferente a cada ano, mas a demência não dá mostras de conhecer cura. Cantam os noventa minutos, o som das trompetes e dos tambores ecoa por todo o lado, fazendo do La Bombonera a Meca do futebol para muitos turistas, que acreditam que tamanha idolatração só pode ser resultado de, aos olhos dos Xeneizes, o mítico recinto se assemelhar a um altar azul e dourado.